sábado, 27 de agosto de 2016

Rock Hudson - This Earth Is Mine

Aos poucos vou completando a filmografia do ator Rock Hudson. Não é muito fácil achar grande parte dos filmes que estrelou, mas com uma certa paciência estou conseguindo, de alguns anos para cá, assistir a vários filmes raros de sua filmografia. Um deles, que ainda permanecia inédito para mim, foi justamente esse "O Vale das Paixões" (This Earth Is Mine, EUA, 1959), dirigido por Henry King. Baseado no romance escrito por Alice Tisdale Hobart o roteiro explora um clã de ricos plantadores de uva no vale de Napa na Califórnia. Foi lá que o grande patriarca Philippe Rambeau (Claude Rains) fundou um império de vinícolas. Os tempos de glória porém parecem coisa do passado pois a Lei Seca está em vigor (a história do filme se passa em 1931) e não há como vender a produção.

Seu neto, John Rambeau (Rock Hudson), resolve então passar por cima da lei para vender o vinho produzido e não vendido para gangsters de Chicago. Ele está disposto a ganhar fortunas com o comércio ilegal de bebidas contrabandeadas. O velho Philippe se sente ultrajado com isso, já que é um homem da velha escola, que se sempre se orgulhou de ter ficado rico honestamente, trabalhando até o sol se por para que sua plantação produzisse o melhor em termos de vinhos finos dos Estados Unidos. Para John porém isso pouco importa. Ele quer também ter a chance de ficar rico, tal como seu avô. Sua posição dentro do clã Rambeau nunca foi muito boa pois ele é um filho bastardo. John nasceu de um grande escândalo moral envolvendo sua mãe e um pai que nunca o assumiu como filho publicamente. Isso faz com que ele procure sempre mostrar seu valor para os demais familiares. Para complicar ainda mais sua vida pessoal, assim que conhece sua prima Elizabeth Rambeau (Jean Simmons), se apaixona perdidamente por ela. Liz viveu muitos anos na Inglaterra e só agora vai até a Califórnia para conhecer seus parentes americanos. Diz o ditado que amor de primo é para sempre, pois é exatamente essa situação que o roteiro procura explorar em termos de romance e paixão entre os protagonistas.

O filme, como era de se esperar, tem uma produção excelente e uma trama melhor ainda. Esses filmes clássicos antigos que procuravam desenvolver personagens complexos, atormentados, sempre superam nossas expectativas. Interessante que durante o filme vi muitas semelhanças entre o personagem de Rock Hudson e o lendário Cal Trask de James Dean em "Vidas Amargas" (East of Eden, EUA, 1955). Ambos pertencem a famílias ricas e ambos são verdadeiras párias dentro de seu clã familiar. Para se destacarem deixam de lado seus valores morais e éticos e entram sem receios numa jornada de ganância insana, em busca da fortuna alcançada de qualquer maneira, seja do jeito que for. Rock e Dean se cruzaram em "Assim Caminha a Humanidade" três anos antes e essa semelhança entre dois personagens tão parecidos causa realmente uma certa perplexidade. A única diferença é que o filme de Dean foi dirigido pelo gênio Elia Kazan e o de Rock Hudson pelo veterano Henry King, que era reconhecidamente um bom cineasta, mas bem longe da genialidade de Kazan.

Outro aspecto digno de nota é que o roteiro faz um paralelo inteligente (e até muito bonito) entre o ciclo da vida, quando gerações mais velhas morrem e são substituídas por novas gerações que de certa maneira acabam seguindo os mesmos passos de seus pais e avôs. Isso fica bem claro na cena final quando os personagens de Rock e Jean Simmons se reencontram no alto da mesma colina onde décadas atrás seus avôs estiveram, começando o seu próprio império. Bastante evocativa a cena é uma das mais marcantes do filme como um todo. No geral eu gostei de tudo, do bom desenvolvimento da história (sem pressa, procurando situar o espectador dentro daquela numerosa família), das boas atuações de todo o elenco (com destaque para o sempre ótimo Claude Rains) e da bela mensagem final. Muitas vezes o destino já nos é traçado por nossa linhagem familiar e de nossos antepassados. Nada está escrito, mas tudo pode ser determinado por nosso próprio passado. Enfim, um grande filme que recomendo a todos que gostam de grandes histórias em filmes clássicos irretocáveis. Produções como essa Hollywood infelizmente já não faz mais. Ecos de um passado glorioso da sétima arte.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Mocinho Encrenqueiro

Título no Brasil: O Mocinho Encrenqueiro
Título Original: The Errand Boy
Ano de Produção: 1961
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Jerry Lewis
Roteiro: Jerry Lewis, Bill Richmond
Elenco: Jerry Lewis, Brian Donlevy, Howard McNear, Kathleen Freeman, Renée Taylor, Fritz Feld
  
Sinopse:
O estúdio Paramutual Pictures a cada dia perde mais dinheiro. Para o presidente da companhia o problema é que os gastos estão fora de controle. Apenas uma pessoa comum, que trabalhe em todas os setores do estúdio, conseguirá descobrir onde está exatamente o problema. Assim eles escolhem o office boy Morty S. Tashman (Lewis) para espionar os empregados, embora nem ele saiba o que está fazendo. Começa assim uma série de situações engraçadas envolvendo Morty em todos os lugares do estúdio.

Comentários:
Aqui Jerry Lewis usa um estúdio de cinema (a própria Paramount Pictures onde o filme foi produzido) como cenário para explorar uma série de gags visuais cômicas. O resultado é divertido, embora a produção apresente alguns problemas. O primeiro deles, e o mais sentido, é a falta de Dean Martin no elenco. Por essa época a bem sucedida parceria entre eles já havia sido rompida. Atuando solo, as situações já não são tão engraçadas como no passado. Além disso o sempre presente risco da saturação surge em determinados momentos - afinal de contas na maioria das cenas temos apenas Jerry Lewis e suas palhaçadas em cena. Provavelmente por essa razão também Lewis (que também assina a produção e o roteiro) tenha optado por realizar um filme rápido, ágil, com pouco mais de 80 minutos. Há realmente momentos bem bolados, como a cena em que Lewis fica preso em um elevador com uma multidão ou então quando, usando a trilha sonora musical, faz um "discurso" inflamado contra seus subordinados inexistentes, tal como se fosse o todo poderoso dono do estúdio. No geral a impressão que o filme me passa é que tudo se trata de uma grande homenagem, bem sincera aliás, de Jerry Lewis ao mundo do cinema. Explorando os bastidores, ridicularizando alguns de seus dogmas, ele conseguiu realmente realizar um filme bem divertido, excelente entretenimento, mas longe de ser uma obra memorável de sua filmografia.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

As Vidas de Marilyn Monroe - Parte 7

Uma das pessoas mais importantes na vida de Marilyn Monroe foi Johnny Hyde. Ele era um figurão de Hollywood, um sujeito muito rico que ficou perdidamente apaixonado pela atriz. Quando Hyde colocou os olhos pela primeira vez em Marilyn ela realmente não era ainda ninguém dentro da indústria. Apenas uma das centenas de  de aspirantes a atriz tentando arranjar algum trabalho dentro dos estúdios de cinema. Certamente era uma garota bonita, ainda bastante jovem, mas como ela havia muitas outras. Hyde era um sujeito muito mais velho do que ela, mas isso não importou pois foi amor à primeira vista. Ele ficou apaixonado como um adolescente na época escolar. Uma paixão devastadora!

Quando conheceu Marilyn, Hyde perdeu o juízo. Resolveu se separar da esposa, abandonou sua família e resolveu se dedicar de corpo e alma a Marilyn. Ela tinha muito a ganhar com esse relacionamento, mas sempre foi muito honesta com Hyde. Desde o começo deixou claro que não o amava como ele a amava. Não havia reciprocidade. Marilyn também jamais quis enganar Hyde dando a ele falsas esperanças. Mesmo assim, implorando por migalhas emocionais, Hyde resolveu apostar tudo o que tinha em Marilyn. Usou todo o seu poder financeiro e prestígio pessoal para conseguir papéis para a jovem atriz. Ele não escondia que era apaixonado por ela a ninguém. Com muito esforço conseguiu que John Huston escalasse Marilyn para seu novo filme que iria se chamar "O Segredo das Jóias". Foi a primeira vitória de Hyde em sua cruzada para transformar Marilyn em uma estrela de Hollywood.

Só havia mais um problema para Hyde, além do pouco retorno que Marilyn lhe dava em termos de afeição e amor: ele estava com um sério problema de coração. Os médicos lhe diziam que ele teria poucos meses de vida pela frente. Isso deixou um estado ainda maior de emergência em seu plano de ajudar Marilyn de todas as formas possíveis. Tão estafado ficou que acabou sofrendo uma parada cardíaca. Foi internado às pressas e só escapou da morte por causa do atendimento de emergência dos médicos que o atenderam. O pior porém veio depois. Marilyn não o visitou no hospital apesar dos inúmeros pedidos e ligações de Hyde para que ela o fosse visitar em seu leito. Quando encontrou com a professora de atuação de Marilyn, Natasha Lytess, desabafou: "Natasha, por que Marilyn não vem me visitar? O que está acontecendo? Eu fiz tudo por ela até hoje! Pode haver mulher mais ingrata do que Marilyn? Estou decepcionado... decepcionado..."

Mesmo com o apelo, Marilyn não foi ao hospital. Quando decidiu que finalmente iria lhe visitar aconteceu o pior: o coração de Hyde não resistiu e ele faleceu durante a madrugada. A morte de Hyde abalou Marilyn seriamente, principalmente pelas circunstâncias que ocorreram. Muitos a culparam por ele ter largado sua esposa e filhos e tudo mais. Marilyn ficou mal. Em seu enterro ela foi aconselhada por seu empresário para que não fosse ao funeral, porque a ex-esposa de Hyde e seus filhos estariam presentes, mas ela não ouviu os conselhos e compareceu ao último adeus de Hyde. Poucos dias depois resolveu se matar, tomando um monte de comprimidos. Quem a salvou da morte foi sua colega de quarto, uma starlet alemã com quem ela dividia o apartamento. Foi a primeira de muitas tentativas de suicídio de Marilyn... O detalhe mais preocupante porém vinha do fato de que Marilyn não tinha nem 25 anos de idade nesse momento em que decidiu acabar com sua própria vida! A tempestade estava apenas começando...

Pablo Aluísio.

domingo, 21 de agosto de 2016

Stewart Granger - King Solomon's Mines

Ontem assisti a versão de 1950 para a clássica história de "As Minas do Rei Salomão" de H. Rider Haggard. Na literatura esse livro é considerado um dos grandes ícones da aventura e no cinema temos várias versões interessantes sobre as aventuras de Allan Quatermain pelo continente africano selvagem. Nessa produção temos como estrelas o grande caçador branco Stewart Granger e Deborah Kerr. Ela interpreta Elizabeth Curtis, uma inglesa que desesperada após o desaparecimento do próprio marido na África, resolve procurá-lo indo até a região onde ele foi visto pela última vez. O sujeito estava com a ideia fixa de encontrar as mitológicas e lendárias minas de diamantes que um dia pertenceram ao Rei Salomão. Em posse de um mapa antigo resolveu encarar uma expedição em território hostil e nunca antes explorado por homens brancos. Depois que entrou naquele lugar simplesmente sumiu sem deixar vestígios.

Assim Elizabeth resolve contratar os serviços do caçador, explorador e aventureiro Allan Quatermain (Stewart Granger). Há muitos anos vivendo na África ele ganha a vida organizando safáris para britânicos endinheirados em busca de alguma aventura em suas vidas. A exploração que Elizabeth pensa fazer porém é algo bem diferente. Significa ir em terras distantes, inexploradas e sem mapeamento confiável. Inicialmente Allan recusa a oferta porém cinco mil libras o fazem mudar de ideia. Ele que pretende um dia voltar para a Inglaterra vê aquele dinheiro como uma saída da África para voltar a Londres onde pode ajudar seu filho. Juntos, Allan Quatermain e Elizabeth Curtis, saem então em direção ao desconhecido, começando uma aventura inesquecível.

Essa versão clássica de "As Minas do Rei Salomão" tem vários aspectos interessantes que não deixaram o filme em si envelhecer tanto como era esperado. O roteiro, sempre com um pé no chão, apostando no realismo (ao contrário da boba versão dos anos 80 estrelada por Richard Chamberlain), aposta no exótico da natureza selvagem africana, no relacionamento dos protagonistas e nas maravilhosas cenas tomadas em locações reais. Esse aliás é o grande diferencial do filme como um todo. Se os produtores tivessem filmado a produção em estúdio, na velha Hollywood, certamente teríamos uma sensação ruim, de coisa falsa. Ao contrário disso toda a equipe técnica e elenco foram realmente para a África, com cenários naturais reais, tudo feito in loco. Isso tornou o filme de certa maneira imune ao tempo. Afinal de contas excelentes cenas naturais nunca envelhecem.

Talvez o que realmente envelheceu e saiu de moda seja o próprio personagem Allan Quatermain. Ele é um caçador de animais e hoje em dia nada é mais odiado pela mentalidade ecológica predominante do que caçadores em geral (vide aquele recente caso envolvendo a caça e morte daquele leão em um santuário africano que ganhou todas as manchetes mundo afora). E como agravante o filme traz a morte real de um elefante logo nas suas primeiras cenas. O magnífico animal foi comprado pelos produtores e morto de fato para impressionar o público na época. A cena aliás é tristemente realista pois após levar o tiro certeiro o elefante cai no chão, tremendo, em estado de choque, tentando sobreviver enquanto outros elefantes fazem de tudo para levantá-lo do chão. Sob o ponto de vista moderno foi algo desprezível de se fazer, chocante mesmo! Provavelmente cenas como essa deixem o filme com um selo ruim, de algo maldito, que não deve ser mais refeito nos dias de hoje. Em minha visão isso é um olhar que não leva em conta o contexto histórico do momento em que o filme foi lançado, há mais de 60 anos atrás. Afinal de contas naquela época ser um caçador na África ainda era visto como algo heroico e altamente engrandecedor. Os tempos mudam.

As Minas do Rei Salomão (King Solomon's Mines, EUA, 1950) Direção: Compton Bennett e Andrew Marton / Roteiro: Helen Deutsch, baseada no livro de H. Rider Haggard / Elenco: Deborah Kerr, Stewart Granger, Richard Carlson, Lowell Gilmore / Sinopse: Uma aristocrata britânica chamada Elizabeth Curtis (Deborah Kerr) decide contratar os serviços do explorador e caçador Allan Quatermain (Stewart Granger) para localizar seu marido desaparecido em terras desconhecidas do continente africano. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme. Vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Direção de Fotografia (Robert Surtees) e Melhor Edição (Ralph E. Winters e Conrad A. Nervig). Também vencedor do Globo de Ouro na categoria de Melhor Direção de Fotografia. 

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

As Cartas de Grace Kelly

Após deixar Hollywood para se casar e ser literalmente uma princesa na Europa, Grace Kelly resolveu manter uma boa postura sobre sua despedida do cinema. Ele raramente deu entrevistas ou disse o que achava da capital do cinema mundial. Discreta, procurou evitar polêmicas desnecessárias, afinal de contas uma nobre de sangue azul não poderia se envolver em fofocas e coisas do tipo. Isso ficou guardado a sete chaves até que recentemente várias cartas de Grace Kelly foram divulgadas, trazendo algumas opiniões da atriz sobre os anos em que passou trabalhando para os grandes estúdios americanos.

Esses escritos revelam de certa forma uma dubiedade na opinião dela sobre tudo o que vivenciou em seus anos como atriz famosa e estrela de Hollywood. Ora Grace parece ter uma visão muito ruim e pessimista sobre a indústria, ora parece saudosista e com muitas saudades daqueles anos. Sobre as relações sociais em Hollywood Grace resumiu tudo em uma frase bem mordaz dizendo: "Tenho muitos conhecidos por lá, mas nenhum amigo!". Depois confessou que o clima de se trabalhar naqueles grandes estúdios não era tão glamoroso quanto o público pensava naquela época. Sobre isso ela escreveu a uma amiga confessando: "Hollywood é um lugar sem piedade. Não conheci nenhum outro lugar no mundo com tantas pessoas sofrendo de crises nervosas, com tantos alcoólatras, neuróticos e tanta gente infeliz. Parece sagrada para o público, mas na verdade é mais profana do que o demônio.”

Um aspecto que chamou bastante a atenção de Grace Kelly quando trabalhava em Hollywood e que talvez tenha sido crucial para que ela largasse a vida de estrela veio da observação que teve sobre a realidade das atrizes mais velhas do que ela. Elas tinham sido estrelas do passado, mas agora não tinham mais importância para os produtores. Grace chegou na conclusão de que quanto mais velha se ficava em Hollywood, menos se conseguia bons papéis e bons salários nos filmes em que atuavam. Isso, claro, quando se conseguia trabalho, pois Grace ficava entristecida como certas estrelas do passado eram mal tratadas pelos produtores após a idade chegar para elas. Ele resumiu suas conclusões em uma carta escrita a um amigo jornalista de Nova Iorque que perguntava se um dia ela retornaria para trabalhar em algum filme. Respondendo a ele, Grace escreveu: "Não vou voltar! Conheci grandes estrelas do passado que praticamente imploravam por um papel quando perdiam a beleza e a juventude! Era muito triste! Elas tinham sido grandes estrelas, fizeram com que os estúdios ganhassem milhões com seus filmes, mas depois de muitos anos ninguém mais se importava com elas ou as respeitavam! Eu quero outro futuro para a minha vida!"

A carga de trabalho também não era nenhum passeio como ela bem explicou: "Há alguns anos, quando cheguei a Hollywood, eu começava a fazer a maquiagem às oito horas da manhã. Depois de uma semana o horário foi adiantado para às 7h30. Todos os dias via Joan Crawford, que começava a ser preparada às cinco, e Loretta Young, que já estava lá desde as quatro da manhã! Deus me livre de viver em uma atividade em que tenho de me levantar cada vez mais cedo e levar cada vez mais tempo para poder encarar as câmeras”. De qualquer maneira Grace Kelly nunca chegou a fechar definitivamente as portas para quem sabe um dia voltar para o cinema! Quando Alfred Hitchcock a convidou para voltar para apenas mais um último filme ela lhe respondeu de volta agradecendo, mas explicando que não voltaria tão cedo. Para o mestre do suspense Grace escreveu: “Obrigada, meu querido Hitch, por ser tão compreensivo e atencioso. Odeio decepcionar você! Também odeio o fato de que provavelmente existam muitas outras ‘cabeças’ capazes de fazer esse papel tão bem como eu – Apesar disso, espero continuar a ser uma de suas ‘vacas sagradas”. Nesse trecho Grace fez um trocadilho com uma declaração que Hitchcock havia feito sobre os atores e atrizes com quem havia trabalhado, os comparando com gado! Depois de forma muito terna ela se despediu dizendo: "Com um imenso carinho me despeço querido amigo" (onde acabou destacando bem a palavra “imenso”). Assinado “Grace”.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Christopher Plummer - Triple Cross

Ontem assisti "Espionagem Internacional" (Triple Cross, França, Inglaterra, 1966). Aqui temos um filme que se passa na II Guerra Mundial, mas que deixa as grandes batalhas épicas de lado para se concentrar no intenso jogo de espionagem existente entre países aliados (Estados Unidos, Inglaterra e Rússia) e países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália). O protagonista é interpretado por Christopher Plummer (sempre excelente) que dá vida ao personagem Eddie Chapman. No começo do filme, logo nas primeiras cenas, somos apresentados a ele e descobrimos do que vive. É um ladrão de cofres inglês que usa de todas as artimanhas para escapar das garras da polícia. Depois de mais um roubo ele finalmente é preso na França. Acaba condenado a uma dura pena de 14 anos de reclusão.

Sua sorte muda quando o país é invadido pela Alemanha. A chegada dos nazistas se mostra uma excelente oportunidade para Chapman finalmente sair da prisão. Ele prontamente se oferece para se tornar espião dos alemães. Já que é inglês e tem talentos de arrombamento e assalto, algo que bem poderia ser aproveitado pelo serviço secreto do Reich. A ideia, que inicialmente parece um tanto absurda, acaba sendo aprovada pelo exército de Hitler. Chapman é liberado e começa um treinamento com outros agentes nazistas. Antes porém que entre em campo para começar os serviços de espionagem ele é colocado à prova, como um teste, para que se saiba se realmente suas intenções são verdadeiras. Poderia um traidor inglês ser leal ao Partido Nazista?

Há dois personagens bem interessantes no filme, na verdade os dois superiores na hierarquia alemã que comandam e coordenam as ações de Chapman. O primeiro deles é o Barão Von Grunen, Coronel do Exército, de origem prussiana, um membro da velha aristocracia alemã. Quem o interpreta é o ator Yul Brynner. De monóculos e trajes militares ele mais se parece com um fanático nazista que não aceita erros ou indisciplina de seus subordinados. No decorrer da história ficaremos sabendo que ele seria mais equilibrado do que se pensava inicialmente, principalmente após se envolver em um atentado contra o próprio Hitler, o que também acaba lhe custando a própria vida e sua honra perante o Terceiro Reich. Sua frase final é das mais interessantes: "Se um exército não consegue nem ao menos explodir direito um quarto onde Hitler estava, então não merece mesmo vencer essa guerra!". A morte por cápsulas de cianureto vem então quase como uma celebração. 

Outra personagem muito interessante é interpretada pela linda atriz (e ícone do cinema) Romy Schneider. Sim, a eterna Sissi de tantos filmes glamorosos. Aqui ela já estava um pouco longe daquela imagem que a consagrou, pois já não era mais tão jovem, mas mesmo assim ainda continuava belíssima. Na verdade sua atuação aqui não faz mesmo tanto jus à sua importância para o cinema da época. Ela está obviamente em um papel secundário, uma Condessa envolvida com espionagem que acaba se interessando romanticamente pelo espião de Plummer. Nada muito convincente, apenas um alívio romântico em um filme de cartas marcadas. Pois bem, nesse ponto você pode pensar que realmente não seria uma boa ideia realizar um filme sobre um traidor (o roteiro aliás é baseado em fatos reais), mas isso é uma visão puramente simplista pois há contornos mais interessante sobre ele do que se possa imaginar. De modo em geral foi um filme que me agradou. Poderia ter sido melhor, com uma edição mais ágil e um ritmo menos lento (o que era comum no cinema inglês da década de 1960), porém nada muito prejudicial. Assim deixo a recomendação para esse filme de espionagem que pelo menos tentou ser diferente e mais original do que os demais, do que era costumeiramente realizado na época.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Marlon Brando - A História de um Mito - Parte 5

Em meados dos anos 1950 o ator Marlon Brando foi até o distante Japão para atuar em seu novo filme chamado "A Casa de Chá do Luar de Agosto" (The Teahouse of the August Moon, EUA, 1956). Embora fosse um americano típico do meio-oeste ele iria interpretar na verdade um personagem japonês, um nativo de nome Sakini. Era obviamente uma aposta arriscada. Ninguém sabia ao certo se a maquiagem iria fazer o espectador esquecer que Brando era um norte-americano ou se tudo ficaria completamente ridículo. O filme dirigido pelo cineasta Daniel Mann contava em seu elenco ainda com outro astro, muito popular na época, Glenn Ford. Antes de desembargar em Tóquio porém Brando resolveu conhecer outros vários países asiáticos. Ele tinha planos de produzir um filme denúncia que mostrasse a pobreza ao redor do mundo, tudo feito em conjunto com a UNESCO.

Assim Brando foi até as Filipinas e outras nações do sudeste asiático para escolher locações, histórias e situações que pudesse explorar em seu documentário. Em cada país que chegou foi recebido como um verdadeiro astro de Hollywood, algo que não o agradava e o deixava até mesmo incomodado. "Não quero ser tratado dessa maneira" - ia logo esclarecendo onde chegava. A imprensa local obviamente o recebia com grande estardalhaço e assim Brando aproveitou para também dar inúmeras entrevistas, a maioria delas falando mal de Hollywood, sua indústria de cinema e da política internacional equivocada promovida pelo governo americano. Para Brando: "Tudo o que o governo dos Estados Unidos faz ao redor do mundo está terrivelmente errado!" Sobre a rotina de ser um ator em Los Angeles ele declarou: "É uma das coisas mais estúpidas do mundo. Você procura fazer um bom trabalho, mas os jornalistas americanos não estão preocupados com arte e sim com fofocas. Eles exploram minha vida pessoal como abutres. Ninguém se importa com os filmes que faço. Eles querem mesmo é saber com quem me deito". Sobre o cinema americano ele resumiu: "Muito comercial, vazio e estúpido".

Ao chegar em Tóquio para o começo das filmagens Brando percebeu que nem tudo seriam flores. O estúdio havia escolhido a época errada para as tomadas de cena, pois chovia todos os dias na capital japonesa. Os produtores não conheciam as estações climáticas do Japão e tinham escolhido a pior delas - a das chuvas torrenciais - para rodar o filme. Sem condições de trabalhar Brando resolveu conhecer a cultura japonesa a fundo. Ele havia frequentado os bairros orientais de Nova Iorque para conhecer melhor o estilo de vida dos japoneses, justamente para parecer mais convincente no filme, porém nada disso poderia significar algo maior do que estar no próprio coração da civilização japonesa. Brando passou a maior parte de seus dias andando pela capital do sol nascente, frequentando seus restaurantes, casas de massagens, absorvendo tudo, a culinária, o idioma (que fez questão de aprender, dando inclusive uma entrevista coletiva em japonês) e convivendo com o japonês comum, o homem médio, o trabalhador (tal como seu papel no filme). Sobre isso falou: "Não me interessa os políticos ou os figurões. Quero conhecer o povo japonês e seu modo de viver".

O projeto porém de filmar o filme no Japão logo se mostrou um desastre. Assim os diretores e executivos da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) decidiram que toda a equipe deveria voltar para os Estados Unidos, para que o filme fosse feito dentro do estúdio em Los Angeles, algo que deixou Brando realmente furioso. Para o ator o filme iria perder muita da sua autenticidade se fosse feito nos Estados Unidos e não no Japão. Embora tenha protestado não houve jeito. Todos voltaram. Pior do que isso, Brando descobriu que a MGM havia escolhido ele para ser o bode expiatório do fracasso no Japão. A imprensa começou a atacar Marlon dizendo que ele havia criado problemas em Tóquio. Não era verdade! Assim o ator começou a surgir no estúdio para trabalhar sem a menor motivação, com cara fechada e obviamente contrariado. A duras penas concluiu sua parte e depois disparou: "O filme não vai convencer. Não fiquei bem com maquiagem de japonês. Melhor esquecer tudo!". O velho rebelde Marlon Brando, pelo visto, não havia perdido seu jeito de criar polêmicas e dar o troco em quem ele achava que o havia apunhalado pelas costas.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Paixão Proibida

Título no Brasil: Paixão Proibida
Título Original: Look Back in Anger
Ano de Produção: 1959
País: Inglaterra
Estúdio: Woodfall Film Productions
Direção: Tony Richardson
Roteiro: Nigel Kneale, John Osborne
Elenco: Richard Burton, Claire Bloom, Mary Ure, Edith Evans, Gary Raymond, Donald Pleasence, Jane Eccles
  
Sinopse:
Jimmy (Richard Burton) e Alison Porter (Mary Ure) estão casados há muitos anos. O relacionamento porém vai de mal a pior a cada dia. Todos os dias há discussões, brigas e ofensas. Jimmy é um sujeito irascível, desrespeitoso, abusivo e violento. A esposa Alison tenta manter o casamento em pé, mas isso vai ficando cada vez mais impossível. Seu marido odeia suas amizades, seu pai, suas origens, praticamente tudo o que diz respeito a ela. Para atingir a esposa ele usa uma linguagem forte, vulgar e bastante opressiva. Não parece haver mais diálogo entre ambos, mas apenas gritos e ofensas. Para piorar Alison está grávida, mas seu marido é tão insano que ela até mesmo reluta em lhe contar a notícia. Ao invés disso pensa em aborto. Seu único apoio é sua amiga Helena Charles (Claire Bloom), uma jovem atriz que resolve passar alguns dias ao seu lado. Ao conviver com o casal todos os dias acaba conhecendo a triste realidade de Alison, afundada em um casamento falido, abusivo e deprimente. Filme indicado ao Globo de Ouro e ao BAFTA Awards na categoria de Melhor Ator (Richard Burton).

Comentários:
Um casamento em ruínas é o tema desse drama inglês chamado "Paixão Proibida". O roteiro foi baseado na peça teatral escrita por John Osborne. Suas origens teatrais ficam óbvias desde a primeira cena. Quase toda a trama se passa dentro de um pequeno quarto e sala em Londres. O lugar é apertado, em cima da casa de uma senhora idosa que o alugou. É lá que vive o casal Porter. O marido Jimmy (Burton, em grande atuação) tenta sobreviver de alguma maneira. De noite passa pelas boates da cidade, tocando seu trompete, levantando alguns trocados. De dia trabalha como feirante numa barraquinha onde vende doces para as crianças. O dinheiro que ganha mal dá para a sobrevivência. Pior acontece dentro de casa. A esposa de Jimmy é uma jovem chamada Alison que todos os dias é humilhada e ofendida pelo marido. O seu pai quer que ela vá embora, mas ela resiste, tentando salvar um relacionamento falido e infeliz. Sua única amiga, a atriz Helena, chega para lhe trazer companhia e apoio, mas logo também vira alvo das ofensas e críticas mordazes de Jimmy. Desesperada por estar grávida, Alison resolve partir, indo morar com o pai e tudo desmorona depois ao saber que foi traída, justamente por alguém em quem confiava cegamente. Esse filme de certa maneira marcou o retorno de Richard Burton para o cinema inglês. Depois de ter atuado em filmes como "O Manto Sagrado" e "Ratos do Deserto" nos Estados Unidos, ele queria voltar para a Inglaterra para rodar um filme que o desafiasse como ator. A adaptação da peça "Look Back in Anger" pareceu ser aquilo que procurava. Havia muitas cenas perfeitas para que Burton desfilasse seu talento dramático. Além disso o elenco contava com ótimas atrizes que se mostraram escolhas certas para a proposta do roteiro. Burton aceitou trabalhar por um cachê bem menor do que recebia em Hollywood, só pela oportunidade de trabalhar no filme. Acabou sendo recompensado por isso, ganhando indicações para o Globo de Ouro e o BAFTA Awards, dois prêmios de muito prestígio. De fato é uma das grandes atuações de sua carreira, muito corajosa é bom frisar, pois seu personagem é em essência um homem desprezível, cheio de sentimentos e atitudes rudes, cruéis e vis. Na cena final ele ainda parece ter algum sentimento verdadeiro em seu coração, embora pareça ser tarde demais para abraçar sua redenção pessoal. O espectador certamente irá nutrir um grande sentimento de compaixão por Alison, sua esposa, pelo sofrimento pelo qual passa. A atriz Mary Ure que a interpreta também teve um fim trágico. Considerada uma das mais belas intérpretes do cinema britânico, a talentosa escocesa morreu de uma overdose acidental, ainda bastante jovem. No caso temos aqui um exemplo de como a vida pode ser tristemente parecida com a arte. Enfim, um belo drama com tintas fortes do clássico cinema britânico. Uma prova que em termos de qualidade a indústria cinematográfica de Londres não deixava muito mesmo a dever aos filmes de Hollywood da época.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Tigre dos Mares

Título no Brasil: O Tigre dos Mares
Título Original: Submarine Command
Ano de Produção: 1951
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: John Farrow
Roteiro: Jonathan Latimer
Elenco: William Holden, Nancy Olson, William Bendix, Arthur Franz, Peggy Webber, Jack Gregson
  
Sinopse:
II Guerra Mundial. O Tenente Comandante Ken White (William Holden) é enviado para servir no USS Tiger Shark, um submarino da frota americana no Pacífico. Durante uma manobra ele comete um pequeno erro tático que acaba custando a vida do Capitão da embarcação. Isso cria um estigma ruim em sua carreira e ele é designado para um serviço burocrático após o fim da guerra. Sempre marcado pelo que aconteceu White chega a cogitar até mesmo a baixa na Marinha, até que a Guerra da Coreia explode e ele é novamente nomeado comandante do mesmo submarino, tendo finalmente a chance de se redimir de seus erros no passado.

Comentários:
Mais um filme de guerra sobre submarinos. A primeira coisa que chama a atenção é que o roteiro procura ser o mais fiel possível ao cotidiano de uma embarcação como essa. Filmado dentro de um submarino real temos uma ideia de como tudo era realmente apertado, com espaço mínimo, tendo a tripulação que se esgueirar para se locomover entre os ambientes. O enredo é de certa forma bem básico. O protagonista, interpretado por William Holden, precisa lidar com uma infame marca de ter errado durante uma batalha naval, o que acabou levando seu próprio capitão à morte. Assim tudo se desenvolve durante sua tentativa de redenção perante seus companheiros de farda. A duração é limitada (o filme não tem sequer 90 minutos de duração), o que traz uma certa agilidade ao desenrolar da trama. Em termos técnicos o filme é bem realizado, mas apresenta um grave problema durante os vinte minutos finais. Na costa da Coreia o submarino é enviado para uma missão especial, onde seus homens precisam destruir duas estações de comunicações do inimigo. A ação se passa durante a noite e a fotografia fica tão excessivamente escura que o espectador acaba ficando sem ver praticamente nada do que acontece na tela. A fotografia em preto e branco sempre mantém um charme a mais, porém aqui erraram a mão completamente, deixando todo mundo literalmente às escuras. Mesmo com esse defeito ainda há muito o que gostar nesse filme. "O Tigre dos Mares" pode até passar longe de ser um dos melhores filmes sobre submarinos durante a II Guerra Mundial, mas com certeza é um dos mais interessantes pelo realismo que procura sempre mostrar.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Janela Indiscreta

Título no Brasil: Janela Indiscreta
Título Original: Rear Window
Ano de Produção: 1954
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Michael Hayes
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Georgine Darcy
  
Sinopse:
Depois de sofrer um acidente durante um trabalho, onde acaba quebrando sua perna, o fotógrafo L.B. 'Jeff' Jefferies (James Stewart) fica imobilizado em seu apartamento em Nova Iorque. Para passar o tempo e matar o tédio ele começa a observar de sua janela a rotina de seus vizinhos. Há de tudo. Uma solteirona desesperada e deprimida para arranjar o amor de sua vida; um casal em pleno fogo de lua de mel; uma bailarina bonita que é cortejada por vários pretendentes; um compositor que passa os seus dias ao piano e um vendedor que supostamente teria matado a própria esposa durante a madrugada. Após presenciar atos bem estranhos dele, Jeff se convence que ele matou a mulher, a esquartejou e colocou partes de seu corpo numa mala. Realidade ou pura ilusão? Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Direção (Alfred Hitchcock), Roteiro (John Michael Hayes), Fotografia (Robert Burks) e Som (Loren L. Ryder).

Comentários:
Após ler um conto de suspense e mistério escrito por Cornell Woolrich, o diretor Alfred Hitchcock decidiu que iria realizar uma versão cinematográfica daquela estória. Obviamente não seria algo fácil. O texto era pequeno, simples e se baseava em apenas uma situação: a de um homem imobilizado, por estar com a perna engessada, que descobria, por acaso, um suposto assassinato no prédio vizinho onde morava. Não havia mesmo muito enredo a se desenvolver, mas Hitchcock era um gênio e acabou realizando uma verdadeira obra prima do cinema. A simplicidade do texto original foi mantida, mas Hitchcock começou a jogar com as situações vividas por seu protagonista, tirando dos pequenos detalhes as maiores qualidades do filme. Tudo está lá. A atitude voyeur do fotógrafo, sua bisbilhotice inconveniente e condenável, sua hesitação em casar com a noiva, uma jovem linda, rica e maravilhosa (interpretada por Grace Kelly) e por fim sua incapacidade de controlar as situações que vão acontecendo diante de seus olhos. Jeff (o personagem de James Stewart) é um homem de ação, que viveu toda a sua carreira viajando para os lugares mais distantes. Agora ele está impedido de agir por causa da situação em que se encontra. Hitchcock assim mistura ansiedade, imobilismo e suspense em um mesmo caldeirão. O resultado é primoroso. Em termos de linguagem cinematográfica o diretor conseguiu trazer o melhor de si para o espectador. Ele utiliza de todas as formas de narrativa disponíveis na época para deixar o público se sentindo como parte de tudo o que acontece na tela. Também usa, com muita competência, a linguagem subjetiva, principalmente quando o protagonista Jeff espia o que está acontecendo ao redor de sua janela. Nessa caso a visão do personagem é a mesma do público. A ideia é dar a todos as mesmas sensações que o fotógrafo sente, onde tudo vê, mas nada pode realmente fazer. Uma posição passiva que causa o desconforto que o cineasta quer passar. Por tudo isso e muito mais esse é um clássico da filmografia de Alfred Hitchcock que merece ser sempre revisto. E para aqueles que gostam de achar as pequenas pontas que o próprio Hitchcock gostava de fazer em seus filmes, repare no quarto do compositor. Bem ao lado do pianista lá está a figura inconfundível do grande mestre do suspense. Mais divertido, impossível.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Um Corpo Que Cai

Título no Brasil: Um Corpo Que Cai
Título Original: Vertigo
Ano de Produção: 1958
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Alec Coppel, Samuel A. Taylor
Elenco: James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Ellen Corby
  
Sinopse:
O detetive John 'Scottie' Ferguson (James Stewart) decide se aposentar da polícia depois da morte de um colega de farda. Ele se culpa pela morte do policial, que tentava salvar sua vida quando despencou de uma altura mortal. Diagnosticado com acrofobia (medo mórbido de alturas), Scottie entende que não pode mais atuar como homem da lei. Ao reencontrar um velho amigo da faculdade recebe uma proposta de trabalho. Algo simples, nada muito complexo. Gavin Elster (Tom Helmore) quer contratá-lo para que ele siga os passos de sua esposa, que ultimamente tem apresentado um comportamento estranho, fora dos padrões. Não se trata de traição, mas sim de algo mais misterioso, talvez alguma obsessão. Depois de uma certa hesitação 'Scottie' acaba aceitando o serviço. Afinal não deve ser algo muito complicado de se fazer. Mal sabe ele que está entrando em uma teia de mentiras e conspirações que resultará em um macabro assassinato. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Direção de Arte e Melhor Som.

Comentários:
"Vertigo" segue sendo um dos mais cultuados filmes do mestre Alfred Hitchcock. Nessa produção ele inaugurou uma nova vertente em sua filmografia, onde problemas e traumas psicológicos formam uma rede de sustentação para crimes mórbidos e violentos. A fórmula iria se sofisticar com "Psicose", o filme que seria considerado sua maior obra prima. Em "Um Corpo Que Cai" Hitchcock usou como matéria prima um antigo romance policial francês escrito por Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Ele mandou seus roteiristas "enxugarem" a trama do livro, cortando aspectos desnecessários, personagens sem importância e subtramas descartáveis, se concentrando apenas na estranha aproximação entre o detetive 'Scottie' Ferguson (James Stewart) e a bela jovem Madeleine Elster (Kim Novak), esposa de seu cliente e amigo. O velho policial é contratado para segui-la pelas ruas de San Francisco, fazendo um relato de tudo o que ela estaria fazendo. Obcecada por uma mulher suicida que viveu no século XIX chamada Carlotta, ela parece ficar fora de si, em transe, quando sozinha. Visita seu túmulo em um cemitério da cidade, depositando flores em sua homenagem, vai a uma exposição onde está exposto um quadro que a retrata na galeria de arte, visita sua antiga casa, agora transformada em hotel e depois, seguindo um roteiro sinistro e macabro, acaba surtando completamente, tentando se matar nas águas geladas da baia de San Francisco. É justamente nesse ponto que tudo muda. Para salvar sua vida, Fergunson acaba se revelando a ela, criando uma aproximação que acaba se transformando em paixão avassaladora. O que o velho detetive não sabe é que tudo não passa de um jogo de cartas marcadas onde ele é apenas uma peça vital de pura manipulação. Falar mais seria estragar as inúmeras surpresas do filme do mestre do suspense. O curioso é que Alfred Hitchcock, obcecado pela beleza da atriz Kim Novak, conseguiu arrancar dela uma grande interpretação, a maior de sua carreira. Novak nunca fora considerada uma grande atriz dramática, mas sim apenas mais uma beldade de Hollywood. Com Hitch as coisas mudaram. Ele conseguiu extrair dela duas interpretações bem convincentes, tanto na pele da fria, sofisticada e misteriosa Madeleine Elster, como da ordinariamente comum e decepcionante Judy Barton. Em ambas as atuações ela está realmente bem acima da média. Isso demonstra a grande diferença que faz um grande diretor para um filme. Já James Stewart seguiu seu próprio estilo pessoal, a do homem íntegro, honesto, que aqui precisa superar um problema psicológico e traumático que o persegue, surgindo sempre em momentos cruciais. "Um Corpo que Cai" é certamente um dos cinco melhores filmes da filmografia de Alfred Hitchcock, aqui no auge de sua fase criativa. Com uma trama cheia de reviravoltas e um domínio completo da arte narrativa, o veterano mestre conseguiu realmente criar mais uma obra prima clássica da sétima arte. Um item completamente indispensável na coleção de todo grande cinéfilo que se preze.

Pablo Aluísio.

domingo, 24 de julho de 2016

Galeria de Imagens: Elizabeth Taylor


Elizabeth Taylor
Maravilhosa sequência de fotos da atriz Elizabeth Taylor. Embora tenha sido uma das maiores estrelas da história de Hollywood, Liz Taylor (como era chamada pelos amigos mais próximos) tinha uma visão muito modesta sobre si mesma. Ela costumava dizer que não se achava muito bonita pois era baixinha e tinha uma certa semelhança com Minnie Mouse (a famosa personagem criada por Walt Disney, a eterna namoradinha do Mickey nos quadrinhos e nas animações). Essa curiosa baixa auto estima de uma das atrizes mais bonitas do cinema americano só foi revelada publicamente muitos anos depois na autobiografia de Rock Hudson, que havia sido um dos grandes amigos de Liz em Hollywood. Juntos eles fizeram o grande clássico "Assim Caminha a Humanidade" (Giant, EUA, 1955), onde Liz e Rock interpretavam um casal texano no começo do século XX.



quinta-feira, 21 de julho de 2016

As Vidas de Marilyn Monroe - Parte 6

Marilyn Monroe teve muitos relacionamentos amorosos em sua vida. Vários deles foram intensos, frutos de grandes paixões, mas ao mesmo tempo eram fugazes demais. A personalidade de Marilyn parecia ter essa característica: ela se apaixonava perdidamente, em paixões fulminantes, porém assim que começava a se relacionar com seu novo companheiro ia perdendo gradualmente o interesse por ele. Marilyn tinha tendência a desenvolver paixões platônicas e como todos sabemos essas sempre se transformavam em fumaça quando eram realizadas no mundo real. Essa forma de viver acompanhou Marilyn por toda a sua vida e não era restrita aos seus namorados, mas também aos seus maridos.

Uma das grandes paixões platônicas de Marilyn Monroe se deu com o escritor Arthur Miller. Em uma época em que Marilyn lutava desesperadamente para adquirir cultura, lendo livros e estudando, Miller representava um ideal de homem culto e respeitado que ela almejava conquistar. Naquela altura de sua vida Marilyn já tinha se cansado dos galãs apaixonados por si mesmos que lotavam os estúdios de Hollywood. Beleza física já não era tão importante para ela. Assim Monroe mudou seus paradigmas e começou a se interessar por homens intelectuais, que pudessem trazer algo de novo para sua vida. Um deles foi seu próprio professor de música na Fox. Um sujeito elegante, com educação primorosa e cultura erudita. Marilyn ficou loucamente apaixonada por ele, mas não foi correspondida. Ele já era casado naquela altura e não queria jogar tudo fora em prol de uma aventura ao lado da atriz.

Isso devastou Marilyn e ela cultivou uma paixão platônica em relação a ele que durou anos e anos. Pela primeira vez em sua vida Marilyn começou a correr atrás de um homem, que ela considerava perfeito, ao invés de ser cortejada e seduzida. O fato de Marilyn ter que ir atrás dele, de sua paixão, ao invés de ficar esperando o tal sujeito se jogar aos seu pés, fez com que ela ficasse ainda mais apaixonada - loucamente apaixonada. Mesmo com todos os esforços realmente não deu em nada e Marilyn experimentou uma das grandes desilusões amorosas de sua vida.

Já com Arthur Miller as coisas foram diferentes. O escritor acabou se apaixonando por Marilyn, colocando fim em seu casamento, jogando seu juízo pela janela. O caso entre Monroe e Miller porém não acabou bem. Ela inicialmente parecia muito apaixonada por ele, a ponto de colocar um retrato do escritor ao lado de sua cama. Ela amava a cultura do marido e seu estilo intelectual, mas não demorou muito para tudo ruir. Miller, compreensivelmente, tinha hábitos moderados, típicos de um escritor. Isso significava que passava horas em seu escritório, escrevendo seus romances e peças em sua velha máquina de escrever. Assim Marilyn começou a se sentir sozinha. Pior do que isso, começou a achar o marido um chato. Em pouco tempo ela começou a desenvolver uma antipatia nada saudável por ele. O divórcio não demorou e ganhou tintas públicas quando ela começou a tomar atitudes humilhantes para com ele, inclusive nos sets de filmagens. O sonho, a paixão, estava novamente morta na vida de Marilyn Monroe.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sua Majestade o Aventureiro

Título no Brasil: Sua Majestade o Aventureiro
Título Original: His Majesty O'Keefe
Ano de Produção: 1954
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Byron Haskin
Roteiro: Borden Chase, James Hill
Elenco: Burt Lancaster, Joan Rice, André Morell, Abraham Sofaer
  
Sinopse:
Depois de sofrer um motim em seu navio, o Capitão David Dion O'Keefe (Burt Lancaster) vai parar em uma ilha remota no Pacífico Sul. Lá ele descobre um grande potencial para comercializar o óleo dos coqueiros da região, algo de muito valor para ser vendido na rota comercial em direção à Europa. Após fazer amizade com os nativos locais O'Keefe retorna para Hong Kong onde pretende comprar um navio para colocar em prática seus planos. O problema é que várias companhias concorrentes farão de tudo para destruir o objetivo comercial do veterano capitão dos mares.

Comentários:
Aventura filmada nas ilhas Fiji, um dos lugares mais bonitos do mundo. Claro que uma produção americana realizada em um lugar tão distante, do outro lado do planeta, acabaria se tornando um desafio e tanto. O diretor Byron Haskin ficou doente durante as filmagens e o próprio astro Burt Lancaster assumiu parte da direção (embora jamais tenha sido creditado por isso pela Warner). Como era comum em filmes como esse na época, o protagonista era um aventureiro, um homem que enfrentava todos os desafios para atingir seus objetivos. Um papel perfeito para Burt Lancaster que vindo do circo se sentia muito bem nesse tipo de aventura onde o aspecto físico do ator era bem mais explorado do que sua capacidade dramática. Aliás em inúmeras cenas Lancaster dispensou o uso de dublês, fazendo ele mesmo várias das sequências mais perigosas. Numa delas ele desce a montanha de uma pedreira antes de haver uma grande explosão. Para isso usa apenas cordas, tal como se estivesse em um número de malabarismo sobre o picadeiro. Já sob o ponto de vista atual o roteiro de "His Majesty O'Keefe" poderia até mesmo ser considerado um pouco complicado de digerir. Isso porque o personagem de Burt Lancaster, apesar de seu estilo jovial e dinâmico, sempre com uma atitude de bom mocismo, pretende no final das contas apenas explorar o povo daquela ilha distante para explorar recursos naturais que supostamente seriam deles de direito. Um dos problemas que o Capitão precisa resolver é como colocar toda aquela gente para trabalhar atendendo ao seu próprio interesse de ficar rico. Os nativos não parecem muito propensos ao trabalho, mas sim a cultuar pedras que eles consideram sagradas. A ótica do colonizador assim acaba prevalecendo, com o Capitão O'Keefe sempre disposto a bolar alguma jogada para se dar bem com a mão de obra daquele povo primitivo. Por fim o filme também traz doses de romantismo, principalmente no romance entre o Capitão e uma garota muito bonita da ilha, interpretada pela bela atriz Joan Rice. Então é isso. "Sua Majestade o Aventureiro" é certamente um bom filme de aventuras ao velho estilo de Hollywood, com muita ação, desafios e a sempre exuberante natureza de Fiji, com suas águas cristalinas e paisagens de tirar o fôlego. Ótima diversão dos mares do Sul.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.