segunda-feira, 26 de setembro de 2016

As Vidas de Marilyn Monroe - Parte 9

Marilyn Monroe tinha realmente problemas psiquiátricos? Como se sabe havia um extenso histórico de doenças mentais na família de Marilyn. Sua própria mãe foi internada em um hospício quando Marilyn era apenas uma criança. Levada para orfanatos ela definitivamente não teve uma infância feliz. Vivendo de lar provisório em lar provisório, muitas vezes sofrendo abusos psicológicos, Marilyn acabou criando uma personalidade cheia de traumas que ao longo dos anos só foram piorando. Uma coisa parecia certa, Marilyn não era uma pessoa fácil de conviver. Ela ia da doçura à fúria em questão de segundos. Também parecia demonstrar ter duas personalidades bem diferentes que se revezavam ao longo do dia. Uma delas era a da menininha órfã, que falava com uma voz de criança, parecendo muito vulnerável e indefesa. A outra personalidade era forte, decidida, dona de si e seu destino. Quem não a conhecia ficava realmente surpresa com essas mudanças.

Dorothy Manning, uma escritora que conviveu com Marilyn nos anos 1950 escreveu bem sobre essa dualidade do modo de ser de Marilyn Monroe em seu cotidiano. Dorothy relembra: "Marilyn era estranha. Quando a encontrei pela primeira vez tive a impressão de estar conhecendo uma menina em corpo de mulher. A vozinha de criança pequena era um tanto assustador. A falta de verbalização adulta, a mentalidade de uma menininha de nove anos! Ela parecia alguém com algum tipo de problema de retardo mental. Cerca de meia hora depois Marilyn surgia totalmente diferente! Ela parecia completamente dona de si, alegre, expansiva, independente, uma mulher moderna, de seu tempo, falando bem, uma diva do cinema. Suas percepções do mundo eram até mesmo brilhantes. Ela falava sobre política, os estúdios, a falta de credibilidade de certas pessoas... Era algo impressionante! Parecia duas pessoas completamente diferentes! Eu ficava sem saber como agir em sua presença!".

Teria Marilyn traços de esquizofrenia? Ou tinha um problema relacionado ao transtorno de personalidade esquizóide? Ninguém até hoje sabe ao certo qual era o problema de Marilyn. Ao longo da vida ela colecionou analistas. Em determinado momento Marilyn se convenceu que seus supostos problemas psiquiátricos poderiam ser curados com análise. Então ela virou uma cliente de inúmeros deles na Califórnia, não raro fazendo duas ou três sessões em um único dia! Nem todos esses analistas tiveram uma boa impressão sobre Marilyn. Como diria Dorothy Manning, Marilyn tinha mesmo problemas: "Todos que conheciam Marilyn tinham a sensação de que havia algo errado com ela. Havia uma sensação no ar de que Marilyn estava obviamente perturbada. Ela tinha ataques de ansiedade e insegurança. Lembrando do passado tenho a clara certeza de que Marilyn era uma pessoa bem estranha e confusa, cuja fraqueza psicológica nos atingia no coração."

O Dr. Milton Gottleb, que atendeu Marilyn, tinha opinião muito semelhante. Ele disse: "Marilyn era muito insegura, uma insegurança patológica. Era uma jovem mulher bem perturbada que tinha acima de tudo medo da vida. Não é errado dizer que tinha uma personalidade esquizóide. Muitos atores e atrizes acabam desenvolvendo algum tipo de neurose em algum momento de suas vidas.". Outro médico, o Dr. Elliot Corday, foi mais sombrio sobre sua avaliação sobre Marilyn: "Eu deixei de atender Marilyn porque ela não conseguia obter melhores resultados. As pessoas entenderiam melhor sobre sua morte se tivessem conhecimento das coisas que soube sobre Marilyn quando ela foi minha cliente. Marilyn havia tentado se matar inúmeras vezes, mais do que muitos pensam. Ela também começou a usar drogas pesadas e eu lhe disse que não seguiria sendo seu médico se aquilo continuasse. Marilyn também tinha ataques recorrentes de melancolia. Ela podia passar a tarde inteira, olhando pela janela, fitando o horizonte, sem falar nada ou pensar nada. Era um tipo de melancolia patológica que poderia levá-la a cometer atos insanos, como o suicídio, por exemplo",

Marilyn tinha muito medo de ficar louca como a mãe. Aliás a loucura não havia apenas atingido a mãe de Marilyn, mas também sua avó, suas tias, primas, etc. Estudos modernos já conseguiram provar que a depressão, por exemplo, pode por via genética, ser passada de mãe para filha. Então essa era uma possibilidade real. Por falar em depressão, Marilyn também sofria bastante com ataques dessa doença. Ela passava semanas trancada em seu quarto completamente escuro, com as portas fechadas, sem ver praticamente ninguém. Os inúmeros abortos a destruíam psicologicamente. Hoje em dia estima-se que Marilyn tenha feito ao longo da vida quatorze abortos. Em uma época em que a pílula anticoncepcional ainda não existia, o risco de surgir uma gravidez indesejada era algo constante na vida da atriz. Contraditoriamente o maior sonho de Marilyn era se tornar mãe. E isso foi apenas mais um fator para deixá-la ainda mais abalada do ponto de vista psicológico.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Marty

Com um roteiro sensacional nas mãos, o diretor americano Delbert Mann (Vidas Separadas), deu vida à "Marty", producão de baixo orçamento e que acabou arrebatando 4 Oscars, entre eles o de melhor filme. Marty conta a história de um açougueiro italiano, simples, honesto e bonachão (Ernest Borgnine) que vive para o trabalho e para sua mãe com quem mora numa simples e ampla casa. Apesar de todas as qualidades morais, Marty é questionado e pressionado por todos, até pela mãe - uma italiana tradicional que luta pelo casamento e pela preservação da família como instituição básica da sociedade - pelo fato de ainda não ter se casado, já que está com (pasme) 34 anos. No fundo, Marty tem vergonha de si mesmo, com baixa de auto-estima, se martiriza por não ter um emprego de mais "status" social, além de ser gordo, tímido, inseguro e feio. Destituído de atributos físicos mais atraentes e marcado por um passado azarado com as mulheres, o açougueiro bondoso e atencioso vai, cada vez mais, recolhendo-se silenciosamente em casa e se isolando do mundo lá fora. Vendo-se pressionado de forma implacável diariamente pela mãe para se casar, Marty passa a frequentar, mesmo contra a vontade, uma espécie de clube de dança onde a paquera frenética domina o ambiente barulhento e enfumaçado.

Acontece que numa determinada noite no tal clube, Marty conhece Clara (Betsy Blair - ex mulher de Gene Kelly), jovem sofrida com a dor de ter sido abandonada pelo namorado que a achava um bagulho. Com sua enorme bondade, Marty ampara a moça em seu sofrimento de abandono e aos poucos vai percebendo que uma força (quase) divina faz com que o casal se conheça, se aproxime e compartilhe os mesmos problemas de timidez, baixa auto-estima e insegurança. Marty agora luta contra o preconceito de todos pelo fato de sua nova namorada ser feia. O longa é uma primazia de fotografia em preto e branco e direção onde o diretor Delbert Mann conduz uma narrativa, focada na solidão de Marty e em elementos quase revolucionários, não lineares e que quebra certos paradigmas. Marty nos coloca diante de valores rígidos da década de 50, onde era quase inadmissível um homem levar uma vida de solteiro mais longeva e feliz, sem a interferência danosa de toda uma sociedade e até da própria família. Convenhamos, uma realidade bem diferente dos dias de hoje, pouco mais de 60 anos depois do filme. Marty abocanhou 4 Oscars: Melhor filme - Melhor diretor (Delbert Mann)  - Melhor ator (Ernest Borgnine)  - Melhor roteiro adaptado.

Marty (Marty, Estados Unidos, 1955) Direção: Delbert Mann / Roteiro: Paddy Chayefsky / Elenco: Ernest Borgnine, Betsy Blair, Esther Minciotti, Karen Steele / Sinopse: O filme narra a vida de Marty Piletti (Ernest Borgnine), um bom homem que acaba sofrendo preconceito por nunca ter se casado, se culpando por causa de sua condição social. Pressionado por todos, ele acaba conhecendo Clara (Betsy Blair) que pode se tornar finalmente o grande amor de sua vida. Filme premiado pelo Globo de Ouro e BAFTA Awards na categoria de Melhor Ator (Borgnine).

Telmo Vilela Jr.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A Taberna das Ilusões Perdidas

Título no Brasil: A Taberna das Ilusões Perdidas
Título Original: The Rat Race
Ano de Produção: 1960
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Robert Mulligan
Roteiro: Garson Kanin
Elenco: Tony Curtis, Debbie Reynolds, Jack Oakie, Kay Medford, Don Rickles, Marjorie Bennett, Joe Bushkin
  
Sinopse:
Tentando tornar em realidade seus sonhos de se tornar um músico de sucesso, o jovem saxofonista Pete Hammond Jr (Tony Curtis) resolve ir embora da pequenina cidadezinha do meio oeste onde nasceu rumo a Nova Iorque. Na cidade grande ele acaba conhecendo o lado duro da vida. Para sobreviver nos primeiros dias, sem emprego e sem trabalho à vista, ele divide um pequeno quartinho com a jovem Peggy Brown (Debbie Reynolds). Ela também veio do interior alguns meses atrás com o sonho de se tornar modelo, mas tudo o que conseguiu foi ganhar alguns trocados trabalhando como companhia de dança em um estabelecimento barato nas redondezas. Prestes a ser despejada por falta de pagamento do aluguel ela acaba se tornando amiga de Pete. Afinal ambos estão passando pelos mesmos problemas (e eles são muitos a cada dia).

Comentários:
Quando eu vi as informações sobre esse filme pela primeira vez pensei se tratar de uma comédia romântica. Essa primeira impressão veio do fato do elenco ser encabeçado pela dupla Tony Curtis e Debbie Reynolds, uma espécie de casal doçura dos anos dourados. Para minha surpresa não era nada disso. O filme tem uma trama realista, melancólica e até mesmo triste. Embora o romance venha a aparecer em seu clímax (em um dos poucos momentos de doce esperança nesse roteiro amargo), o fato é que o filme investe mesmo na dura realidade de dois jovens perdidos em uma grande cidade que no fundo pode engolir a ambos sem piedade. O título original do filme inclusive vem de uma fala ácida de Reynolds ao dizer que pelo luta da sobrevivência na selva de pedra vale tudo, com as pessoas se comportando como se estivessem em uma corrida de ratos! É triste, mas soa bem real de fato. A própria personagem de Debbie Reynolds é um jovem garota que não sonha mais. Ela havia ido para New York pensando se tornar modelo, mas tudo cai por terra e ela se vê sendo explorada por um crápula que a chantageia para que ela se torne prostituta. Arruinada financeiramente, ela não consegue sequer pagar o aluguel do quartinho minúsculo em que mora! Sua falta de esperança acaba contrastando  com a chegada do músico de interior interpretado por Tony Curtis. Esse ainda sonha em vencer na cidade grande, se tornando um músico de renome. Os primeiros dias porém logo acabam com suas esperanças. Uma quadrilha de picaretas rouba seus instrumentos e ele fica sem seu meio de trabalho. O drama desse filme realmente me deixou bem surpreso. Não é algo tão dramático e trágico como nas peças de Tennessee Williams, mas que acaba no final das contas tendo a mesma dose de realismo cortante. A única coisa que pode salvar personagens tão amargos, vivendo em uma realidade tão cruel, é o amor. E eles estão tão massacrados pela vida dura que levam que até isso - expressar um sentimento verdadeiro pelo outro - acaba virando um tremendo esforço pessoal por parte de cada um deles. Em suma, um filme realmente acima da média que vai agradar bastante aos cinéfilos que estejam em busca de um tipo de cinema clássico mais socialmente consciente, retratando pessoas bem reais, com suas dificuldades para viver a cada dia, tentando sobreviver ao seu próprio fracasso pessoal.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Príncipe Negro

Título no Brasil: O Príncipe Negro
Título Original: The Dark Avenger
Ano de Produção: 1955
País: Inglaterra
Estúdio: Allied Artists Pictures
Direção: Henry Levin
Roteiro: Daniel B. Ullman
Elenco: Errol Flynn, Joanne Dru, Peter Finch, Yvonne Furneaux, Michael Hordern, Moultrie Kelsall

Sinopse:
Idade Média. Durante a Guerra dos Cem Anos entre Inglaterra e França, após uma violenta batalha em solo francês, o Rei Edward VIII (Michael Hordern) resolve voltar para a Inglaterra, pois seu reino também está sofrendo com rebeliões internas. Para cuidar, proteger e administrar de seus territórios franceses recém conquistados o Rei resolve deixar seu filho, o Príncipe de Gales (Flynn), responsável por tudo. Não será algo fácil. Os senhores feudais franceses querem a expulsão dos ingleses a todo custo e farão de tudo para reconquistarem suas terras e castelos.

Comentários:
Produção medieval B ao estilo capa e espada dos estúdios ingleses Allied Pictures. O grande destaque vem da presença do antigo astro da Warner Errol Flynn. No passado ele havia estrelado algumas das mais caras e ricas produções de Hollywood, muitas sob direção de Michael Curtiz. Quando realizou esse filme porém Flynn já estava em fim de carreira. O ator havia destruído parte de sua fama nos Estados Unidos por causa de bebidas, drogas e mulheres. Além disso, como foi descoberto depois por alguns biógrafos, ele também colaborou com os nazistas durante a II Guerra Mundial, se tornando um espião de Berlim em Hollywood. Tudo isso obviamente colaborou para que ele entrasse em decadência. Quando foi para Inglaterra atuar nesse "O Príncipe Negro" ele já estava praticamente acabado. E isso se nota bem no filme. Flynn está com um aspecto envelhecido, fora de forma (inchado para falar a verdade), com pouca disposição em atuar bem. Pior do que isso, ele está muito velho no papel, pois no roteiro o príncipe que interpreta era apenas um jovem inexperiente que acaba causando surpresa em todos por causa de sua coragem e valentia. Ora, o personagem deveria ter no máximo 20 anos de idade, mas quando Flynn o interpretou já estava com 45! Assim tudo soa pouco convincente. Outro aspecto que chama a atenção nesse filme é que a fotografia é bem mais escura do que o habitual, tudo para esconder o orçamento limitado da própria produção. Um velho artifício dos filmes noir que foi usado por essa produção de aventuras medievais. Em suma, um momento menor de um grande astro do cinema clássico em Hollywood que deixou tudo lhe escapar por causa dos excessos que cometeu em sua breve e conturbada vida. Vale porém pela curiosidade histórica, especialmente indicado para os fãs de Errol Flynn.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Tobruk

Título no Brasil: Tobruk
Título Original: Tobruk
Ano de Produção: 1967
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures
Direção: Arthur Hiller
Roteiro: Leo Gordon
Elenco: Rock Hudson, George Peppard, Nigel Green, Guy Stockwell, Jack Watson, Norman Rossington
  
Sinopse:
O enredo do filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Após ser libertado das mãos dos inimigos, o major canadense Donald Craig (Rock Hudson) é levado para o norte da África. Ele deverá participar de uma missão extremamente arriscada. Ao lado de um grupo de judeus alemães disfarçados de soldados nazistas ele é enviado para um comboio que deverá entrar em território ocupado pelas tropas de Hitler com o objetivo de destruir um grande depósito de combustíveis em Tobruk usado pelos tanques do III Reich. A intenção é destruir o poder de combate dessas armas do exército alemão enquanto os aliados se preparam para invadir a região. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhores Efeitos Especiais (Howard A. Anderson e Albert Whitlock).

Comentários:
Durante a II Guerra Mundial um dos cenários mais disputados entre nazistas e aliados foi a região de Tobruk, localizada no norte da África, considerada naquela ocasião como um importante ponto estratégico. Foi justamente nesse campo que se destacou a presença do Afrika Korps, um grupo especializado do exército alemão treinado para a luta no deserto. O general Erwin Rommel foi uma das figuras centrais desse campo de batalha. O roteiro desse filme assim mistura fatos de ficção com história real e se sai muito bem em seu resultado final. Os personagens do filme são pura ficção enquanto o cenário mostrado em cena realmente existiu, inclusive os imensos campos de depósito de combustível para os tanques da Alemanha Nazista localizados no porto de Trobuk. O curioso é que o grupo do qual faz parte o personagem do ator Rock Hudson se utiliza de uma artimanha que na época era considerado um grave crime de guerra, punido com execução sumária, ou seja, se disfarçar com roupas e uniformes do inimigo para entrar em seus territórios com o objetivo de se promover atos de sabotagem. Assim o que vemos basicamente é esse grupo de militares ingleses (e de judeus alemães disfarçados de nazistas) entrando dentro das linhas inimigas para mandar tudo pelos ares. As cenas finais em que isso acontece inclusive trouxeram a única indicação do filme ao Oscar, já que são extremamente bem realizadas, com intenso uso de efeitos especiais de pirotecnia e explosões. O personagem de Rock Hudson surge menos heroico do que o habitual. Em determinados momentos ele chega inclusive a ser bem cético e mordaz sobre o êxito da missão. Sua presença porém é vital para o sucesso do grupo pois é um dos únicos que conhece bem a região para onde todos vão. De qualquer forma há duas boas cenas com ele, a primeira quando precisa desarmar minas colocadas pelo Afrika Korps nas areias do deserto e a segunda quando, com um lança-chamas em mãos, ataca um bunker de canhões do III Reich na costa de Tobruk. Seu superior na missão é um Coronel inglês propositalmente muito parecido com o general Bernard Montgomery (comandante das forças armadas britânicas durante a II Guerra). Obviamente o roteiro quis fazer uma associação entre o personagem de ficção e o famoso militar da história. Assim o que temos aqui é mais um bom filme de guerra da década de 1960. O enfoque é mais centrado na ação e na tensão do êxito da arriscada missão do que em questões mais dramáticas ou históricas. Sob esse ponto de vista o filme se sai muito bem em seus objetivos. Enfim, é certamente um bom item para se ter em sua coleção de filmes clássicos de guerra.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Fantástica Fábrica de Chocolate

Título no Brasil: A Fantástica Fábrica de Chocolate
Título Original: Willy Wonka & the Chocolate Factory
Ano de Produção: 1971
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Mel Stuart
Roteiro: Roald Dahl
Elenco: Gene Wilder, Jack Albertson, Peter Ostrum, Roy Kinnear, Julie Dawn Cole, Denise Nickerson
  
Sinopse:
O misterioso e recluso Willy Wonka (Wilder), o dono da maior fábrica de chocolate do país, resolve fazer uma promoção especial. Ele coloca vários convites em suas barras de chocolate. Aqueles que os encontrarem farão uma visita em sua fábrica, um lugar mágico, com rios de chocolate e florestas de doces. É o sonho de cada criança. Assim que chegam no mercado os chocolates são disputados por todas as crianças do país. O pobre garoto Charlie (Peter Ostrum) só tem dinheiro para comprar uma única barra... Seu sonho é visitar a fábrica de Wonka ao lado de seu avô. Para sua surpresa ela acaba descobrindo a força dos sonhos de cada um. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Trilha Sonora adaptada e música. Também indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator - Comédia ou Musical (Gene Wilder). 

Comentários:
Esqueça a esquizofrênica e chata versão de Tim Burton. Em termos de "A Fantástica Fábrica de Chocolate" o melhor filme é justamente esse, o clássico da década de 1970. É a tal coisa, se você foi jovem ou adolescente nos anos 70 ou 80 certamente assistiu a alguma das inúmeras reprises desse filme na Sessão da Tarde. O filme foi um dos campeões de exibição naquela época. Isso acabou criando uma geração de fãs da fábula de Willy Wonka e do pobre garoto Charlie. Para realizar a produção o estúdio Warner recriou a fábrica, com bem elaborados cenários. O roteiro mostrava um bando de garotos que eram recebidos por Wonka em sua fábrica para o que supostamente seria um passeio pelas instalações. No fundo o industrial estava mesmo procurando por um sucessor pois já estava ficando velho e não tinha a quem deixar toda aquela sua fortuna. O interessante da estória criada por Roald Dahl em seu livro infantil (o autor iria também escrever o roteiro do filme) era que ele trazia uma sutil crítica à revolução industrial, mostrando de um lado o rico Wonka e do outro a miséria absoluta da família de Charlie, com todos vivendo em um pequeno quartinho escuro e úmido na periferia da cidade. No mais o filme se destacava mesmo pelas cores, pela imaginação sem freios e é claro pela direção de arte (que injustamente não foi indicada ao Oscar). Ao invés disso o lado musical do filme foi lembrado pela academia, inclusive com as boas interpretações de Wilder, cantando belas canções como "Pure Imagination". Com experiência nos palcos da Broadway em Nova Iorque ele não fez feio soltando sua voz. Enfim, "Willy Wonka & the Chocolate Factory" é sem dúvida uma das fábulas cinematográficas mais ternas, belas e nostálgicas do cinema americano dos anos 70. No meio de um realismo que invadia todos os filmes da época, esse aqui resolveu apostar na fantasia e na imaginação, colhendo ótimos frutos com essa opção.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Gene Wilder (1933 - 2016)

A morte do ator Gene Wilder no último dia 29 de agosto fez com que todos lembrassem de sua inesquecível interpretação de Willy Wonka no clássico "A Fantástica Fábrica de Chocolate" de 1970. O filme, um dos campeões de exibição na TV brasileira, realmente trazia um daqueles momentos vitais na carreira de qualquer ator, porém Wilder teve uma carreira muito mais interessante do que muitos possam imaginar inicialmente.

O ator nasceu em uma família de imigrantes judeus nos Estados Unidos. Não havia qualquer tipo de tradição familiar no mundo das artes, mas Wilder, um grande fã de cinema e teatro, decidiu bem jovem que queria ser um ator dramático, como Marlon Brando que admirava desde a juventude. Assim ele começou a procurar escolas de arte dramática em Milwaukee, onde nasceu. As oportunidades porém era poucas e raras. Além disso, mesmo que se formasse em alguma universidade ou escola da região para ser ator não haveria mesmo muitas oportunidades de trabalho em sua terra natal. Era preciso ir embora atrás de seus sonhos. Sua saída seria ir morar em Nova Iorque onde estavam as melhores escolas de formação de atores dos Estados Unidos.

Na grande cidade Wilder conseguiu ser aceito no prestigiado Actors Studio, a mesma escola de arte dramática que Marlon Brando havia estudado vinte anos antes. Pelo visto seus planos de se tornar um grande ator estavam dando muito certo. Porém nas aulas seus professores descobriram que o grande talento de Wilder não vinha dos textos dramáticos, mas sim do humor. Ele tinha um grande talento para a comédia, além disso suas feições (com grandes e expressivos olhos) pareciam adequados para personagens que exploravam essa característica. Precisando trabalhar e convencido dos argumentos de seus mestres Wilder resolveu então apostar nessa linha de atuação. Ele seria comediante.

Sob um ponto de vista crítico Wilder realmente teve muita sorte na carreira. Logo em um de seus primeiros filmes, o clássico "Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas", ele teve uma pequena, mas marcante participação, que logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood. Sua amizade pessoal com a atriz Anne Bancroft também lhe ajudou muito. Esposa do diretor Mel Brooks, Anne conseguiu que Gene fosse escalado para outro filme marcante da época, a adaptação para o cinema do clássico teatral "Primavera Para Hitler". O sucesso de público e crítica abriu ainda mais as portas da indústria para Wilder que a partir daí teria a fase mais bem sucedida de toda a sua carreira. Por esse filme também ganhou sua primeira indicação ao Oscar, um feito e tanto para alguém que mal começara a atuar no cinema.

"A Fantástica Fábrica de Chocolate" de Mel Stuart acabou transformando Wilder em um astro. O filme, uma fábula divertida e ao mesmo tempo delicada e emocional, sobre um pobre jovem que conseguia tirar a sorte grande ao achar um convite para conhecer a famosa fábrica de chocolates de sua cidade natal, mudando sua vida para sempre, é ainda hoje considerado um dos melhores filmes já realizados no gênero. Wilder tinha um carinho muito especial pelo filme, sempre destacando que aquele havia sido realmente um ponto de mudança completa em sua filmografia.

Depois de dar vida ao inesquecível Willy Wonka, Wilder deu prosseguimento em sua excelente e muito produtiva parceria ao lado do diretor Mel Brooks, que o adotou como ator símbolo de seus filmes. Ao lado do cineasta, Wilder rodou grandes sucessos de público e crítica como "Banzé no Oeste" (uma divertida sátira ao western americano) e "O Jovem Frankenstein" (outra sátira, só que dirigida aos filmes de terror). Esse último filme aliás trouxe uma surpresa e tanto para Wilder quando acabou sendo indicado ao Oscar por seu roteiro (que ajudou a escrever junto ao diretor Brooks). E ele não pararia por aí. Com Woody Allen rodou uma participação impagável em "Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar", uma das melhores comédias do diretor.

Gene Wilder também se aventurou na direção com ótimos resultados. Dirigiu filmes tão interessantes como "O Irmão mais Esperto de Sherlock Holmes" (ótima brincadeira com o famoso personagem detetive) e "A Dama de Vermelho" (provavelmente seu filme mais lembrado como diretor, aproveitando a beleza da atriz Kelly LeBrock). Depois de mais uma divertida comédia, "Lua de Mel Assombrada", Wilder resolve se afastar do cinema, devastado pela morte da esposa por um agressivo câncer.

Depois dessa tragédia pessoal o ator passou por momentos complicados em sua vida pessoal, desenvolvendo uma depressão que o acompanhou por muitos anos. Só aceitou voltar a trabalhar em pequenos projetos, comédias menos pretensiosas, geralmente ao lado do amigo e comediante Richard Pryor. São dessa fase fitas como "Cegos, Surdos e Loucos!" e "Um Sem Juízo, Outro Sem Razão". Nenhum desses filmes era exatamente um clássico, mas serviam para deixar Wilder em cartaz, trabalhando. Em 1991 Wilder deixou o cinema para sempre, só voltando a atuar em pequenas participações eventuais e esporádicas em séries e pequenos telefilmes. O ator considerava concluída sua carreira. Ela já havia feito (e muito) pela sétima arte. Disso certamente ninguém iria discordar.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Intriga Internacional

Título no Brasil: Intriga Internacional
Título Original: North by Northwest
Ano de Produção: 1959
País: Estados Unidos
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Ernest Lehman
Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Martin Landau, Jessie Royce Landis, Josephine Hutchinson
  
Sinopse:
Roger O. Thornhill (Cary Grant) é um publicitário falastrão de Manhattan que acaba sendo confundindo com um espião americano. Jogado no meio de um jogo de vida e morte de espionagem internacional que mal consegue compreender, ele tenta se manter vivo. No meio do caos que sua vida se torna ele acaba se apaixonando pela bonita e misteriosa Eve Kendall (Eva Marie Saint), sem desconfiar contudo que ela também faz parte dessa mortal intriga internacional. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Roteiro Original (Ernest Lehman), Melhor Direção de Arte (William A. Horning, Robert F. Boyle) e Melhor Edição (George Tomasini).

Comentários:
O mestre do suspense Alfred Hitchcock costumava dizer que não estava muito interessado nas estórias que contava, mas sim na forma como as contava. Ele se considerava um "pintor de flores" do mundo cinematográfico. Esse filme "North by Northwest" se encaixava bem nesse ponto de vista. O filme não tem um grande enredo. Na verdade tudo se resume na estória de um homem errado que se encontra no lugar errado no momento errado, sendo confundido com um assassino internacional, um espião há muito procurado por serviços de inteligência ao redor do mundo. Depois que isso acontece sua vida se torna caótica, onde ele tenta sobreviver de todas as maneiras às várias tentativas de eliminá-lo! O curioso é que, como o roteiro explica depois, o espião verdadeiro com o qual ele é confundido sequer existe, sendo apenas uma invenção da CIA para despistar seus perseguidores. Assim se o plot que dá início a tudo não é lá grande coisa, o mesmo não se pode dizer da forma como o bom e velho Hitch desenvolve tudo. Há duas sequências que ficaram bem conhecidas. A primeira acontece quando o personagem de Grant é perseguido por um avião no meio do nada! Essa cena é a mais conhecida do filme até os dias de hoje. Também é a que melhor aproveita o suspense que foi a marca registrada da filmografia do diretor. Outro ponto alto acontece no clímax, quando Grant e Marie Saint participam de uma perseguição no alto do monte Rushmore (com os rostos dos presidentes americanos mais memoráveis esculpidos na rocha). No geral não é um dos filmes mais importantes da obra de Alfred Hitchcock, muito embora seja dos mais conhecidos. Pelo visto o diretor aqui optou pelo lado mais comercial do cinema americano, deixando seu lado autoral (que sempre foi seu maior legado) um pouco de lado. Mesmo assim não há como ignorar. É também um filme essencial para todo cinéfilo que queira conhecer melhor o cinema clássico que era produzido na época. Além disso como traz a assinatura de Alfred Hitchcock se torna ainda mais importante de se conferir.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.


Marlon Brando - A História de um Mito - Parte 6

Da geração de talentosos atores jovens surgidos na década de 1950, três se destacaram, tanto em termos de público como de crítica: Marlon Brando, James Dean e Montgomery Clift. Assim que surgiram logo chamaram a atenção. Era considerado o trio rebelde máximo do cinema americano. Brando não tinha muita consideração para com James Dean. Em certos aspectos apenas o considerava como um imitador. Quando se encontraram pessoalmente Brando deixou isso bem claro a Dean, dizendo: "Pare de me imitar! Encontre seu próprio caminho!". Apesar de magoado, James Dean parece ter seguido seu conselho, começando a partir daí a criar um estilo pessoal que não mais apenas seguisse o jeito de ser de seu ídolo na época, Marlon Brando.

Com o tempo James Dean foi se distanciando da enorme influência que Brando havia exercido sobre o seu jeito de atuar. O próprio Brando reconheceu isso em seu livro de memórias. Ele escreveu: "James Dean queria minha aprovação. Queria que eu convalidasse o que ele estava fazendo. No começo me pareceu apenas que ele queria me imitar. Depois começou a seguir uma linha própria. Ele acabou se tornando um bom ator. Infelizmente morreu cedo demais para desenvolver todo o seu talento!". Ao longo daqueles anos ambos se encontraram casualmente em festas em Hollywood. Brando não se sentia à vontade na presença de James Dean, o considerando um sujeito instável, nervoso e ansioso demais para se estar ao lado. De certa forma Marlon Brando não admirava Dean e nem tampouco o queria por perto.

Em relação a Montgomery Clift as suas impressões eram bem diferentes. Brando sabia que Clift era um ator maravilhoso, cheio de recursos dramáticos que ele próprio queria ter. Ao longo do tempo ambos sempre eram comparados pela imprensa americana. Isso foi criando uma rivalidade dentro da mente de Brando. Ele sempre queria superar Clift, seja qual fosse o filme em que atuasse. Além disso ficou muito envaidecido quando Clift declarou a um jornal de Los Angeles: "Marlon Brando é um dos maiores atores vivos. Ele consegue grandes interpretações, mesmo quando atua em filmes que não estão à sua altura. Ele faz muito, geralmente com material de segunda!". Ou seja, Clift disse que mesmo quando o filme era ruim a presença de Brando compensava tudo.

O curioso é que eles tinham os mesmos agentes, tanto em Nova Iorque como em Los Angeles, mas pouco se conheciam pessoalmente, se encontrando apenas em raras ocasiões. Quando Brando e Clift foram contratados para atuar no mesmo filme, "Os Deuses Vencidos", finalmente se encontraram face a face em um hotel de Paris. Ao se sentar com Clift à mesa durante o jantar, Brando deixou de lado seu estilo mais egocêntrico para confessar o que sentia em relação a ele e seu trabalho. Acabou dizendo para Monty o que havia guardado por anos ao dizer: "Eu adoro seu trabalho. Você é o único ator que procuro superar em Hollywood. Você é a minha pedra angular, aquele que tento me espelhar e superar! Sua atuação em "Um Lugar ao Sol" foi maravilhosa, a melhor que vi em muitos anos! Clift você é genial!". Os elogios foram tão diretos que deixaram Montgomery Clift sem jeito. "Brando, como poderia agradecer essas palavras?" - disse o ator. Curiosamente Brando acabou ficando extremamente entristecido ao perceber também que aquele grande ator estava aos poucos se auto destruindo com drogas e bebidas. Em pouco tempo Montgomery Clift morreria o que deixaria Brando desolado. "Ele foi um dos grandes que conheci em minha vida" - chegou Brando a confessar após a morte do colega que tanto admirava.

Pablo Aluísio.

As Vidas de Marilyn Monroe - Parte 8

Um aspecto que poucos fãs de Marilyn Monroe conheciam na época em que ela fazia sucesso no cinema era que na intimidade dos sets de filmagens Marilyn demonstrava ter verdadeiro pavor de entrar em cena. Isso se tornou um verdadeiro martírio para praticamente todos os diretores que trabalharam ao seu lado. Chegar na hora das filmagens, declamar seu texto sem erros, atuar bem - esses pontos, essenciais para qualquer ator ou atriz, eram barreiras imensas para Marilyn.

Marilyn nunca chegava na hora certa. Todos os cineastas sabiam disso. Billy Wilder foi informado sobre os problemas de Marilyn, mas não chegou a perceber o tamanho do problema. Anos depois de ter trabalhado ao seu lado, Wilder confessou em uma entrevista: "As filmagens eram marcadas para começarem às nove da manhã, mas Marilyn aparecia no set às duas da tarde! Era um tormento. Geralmente eu usava as manhãs para gravar todas as cenas em que ela não estava. Mas isso ainda era insuficiente. Assim comecei a gravar com os atores que contracenariam com ela. Apenas closes de seus rostos falando suas falas! Lá pela tarde Marilyn finalmente aparecia no set. Ela não parecia ter decorado nenhuma linha de suas falas! Insegura, geralmente se trancava no trailer! Olha, era um verdadeiro inferno!"

Até diretores que eram reconhecidamente ótimos cavalheiros perderam a paciência com Marilyn. Um deles foi Laurence Olivier. Quando Marilyn foi para a Inglaterra para trabalhar ao seu lado em um novo filme ele mal sabia os problemas que o esperavam. Novamente Monroe voltou ao seu habitual. Não aparecia na hora certa, mostrava muitos problemas para memorizar suas falas - alguns diziam que os problemas vinham do fato dela tomar muitas pílulas que embaralhavam sua mente - e ataques de raiva e fúria na frente da equipe técnica. Depois de mais um atraso de quatro horas, o antes polido e educado Olivier explodiu, gritando com Marilyn, dizendo: "Você não tem o menor senso de profissionalismo?" - disse exacerbado,  ao que Marilyn respondeu, também gritando: "Vá se danar! Se você não me pedir desculpas na próxima meia hora vou pensar seriamente em pegar o primeiro avião de volta aos Estados Unidos!".

Alarmado e preocupado em perder milhões caso o filme não fosse feito, Laurence engoliu todo o seu orgulho pessoal e pediu desculpas a Marilyn. Depois chegou até mesmo a elogiar a atriz publicamente: "Trabalhar com Marilyn não foi fácil. Depois de cada cena eu pensava que ela havia atuado muito mal, mas quando assistia as gravações via que ela havia se saído melhor do que todos os demais atores do elenco! A câmera amava Marilyn!". O auge dos problemas de Marilyn levaria ela a ser demitida pela Fox naquele que seria seu último filme, uma comédia romântica rodada ao lado de Dean Martin. A produção, cara e problemática, ficou inacabada pois Marilyn morreria logo após, vítima de uma suposta overdose de drogas acidental.

Pablo Aluísio.

sábado, 27 de agosto de 2016

Rock Hudson - This Earth Is Mine

Aos poucos vou completando a filmografia do ator Rock Hudson. Não é muito fácil achar grande parte dos filmes que estrelou, mas com uma certa paciência estou conseguindo, de alguns anos para cá, assistir a vários filmes raros de sua filmografia. Um deles, que ainda permanecia inédito para mim, foi justamente esse "O Vale das Paixões" (This Earth Is Mine, EUA, 1959), dirigido por Henry King. Baseado no romance escrito por Alice Tisdale Hobart o roteiro explora um clã de ricos plantadores de uva no vale de Napa na Califórnia. Foi lá que o grande patriarca Philippe Rambeau (Claude Rains) fundou um império de vinícolas. Os tempos de glória porém parecem coisa do passado pois a Lei Seca está em vigor (a história do filme se passa em 1931) e não há como vender a produção.

Seu neto, John Rambeau (Rock Hudson), resolve então passar por cima da lei para vender o vinho produzido e não vendido para gangsters de Chicago. Ele está disposto a ganhar fortunas com o comércio ilegal de bebidas contrabandeadas. O velho Philippe se sente ultrajado com isso, já que é um homem da velha escola, que se sempre se orgulhou de ter ficado rico honestamente, trabalhando até o sol se por para que sua plantação produzisse o melhor em termos de vinhos finos dos Estados Unidos. Para John porém isso pouco importa. Ele quer também ter a chance de ficar rico, tal como seu avô. Sua posição dentro do clã Rambeau nunca foi muito boa pois ele é um filho bastardo. John nasceu de um grande escândalo moral envolvendo sua mãe e um pai que nunca o assumiu como filho publicamente. Isso faz com que ele procure sempre mostrar seu valor para os demais familiares. Para complicar ainda mais sua vida pessoal, assim que conhece sua prima Elizabeth Rambeau (Jean Simmons), se apaixona perdidamente por ela. Liz viveu muitos anos na Inglaterra e só agora vai até a Califórnia para conhecer seus parentes americanos. Diz o ditado que amor de primo é para sempre, pois é exatamente essa situação que o roteiro procura explorar em termos de romance e paixão entre os protagonistas.

O filme, como era de se esperar, tem uma produção excelente e uma trama melhor ainda. Esses filmes clássicos antigos que procuravam desenvolver personagens complexos, atormentados, sempre superam nossas expectativas. Interessante que durante o filme vi muitas semelhanças entre o personagem de Rock Hudson e o lendário Cal Trask de James Dean em "Vidas Amargas" (East of Eden, EUA, 1955). Ambos pertencem a famílias ricas e ambos são verdadeiras párias dentro de seu clã familiar. Para se destacarem deixam de lado seus valores morais e éticos e entram sem receios numa jornada de ganância insana, em busca da fortuna alcançada de qualquer maneira, seja do jeito que for. Rock e Dean se cruzaram em "Assim Caminha a Humanidade" três anos antes e essa semelhança entre dois personagens tão parecidos causa realmente uma certa perplexidade. A única diferença é que o filme de Dean foi dirigido pelo gênio Elia Kazan e o de Rock Hudson pelo veterano Henry King, que era reconhecidamente um bom cineasta, mas bem longe da genialidade de Kazan.

Outro aspecto digno de nota é que o roteiro faz um paralelo inteligente (e até muito bonito) entre o ciclo da vida, quando gerações mais velhas morrem e são substituídas por novas gerações que de certa maneira acabam seguindo os mesmos passos de seus pais e avôs. Isso fica bem claro na cena final quando os personagens de Rock e Jean Simmons se reencontram no alto da mesma colina onde décadas atrás seus avôs estiveram, começando o seu próprio império. Bastante evocativa a cena é uma das mais marcantes do filme como um todo. No geral eu gostei de tudo, do bom desenvolvimento da história (sem pressa, procurando situar o espectador dentro daquela numerosa família), das boas atuações de todo o elenco (com destaque para o sempre ótimo Claude Rains) e da bela mensagem final. Muitas vezes o destino já nos é traçado por nossa linhagem familiar e de nossos antepassados. Nada está escrito, mas tudo pode ser determinado por nosso próprio passado. Enfim, um grande filme que recomendo a todos que gostam de grandes histórias em filmes clássicos irretocáveis. Produções como essa Hollywood infelizmente já não faz mais. Ecos de um passado glorioso da sétima arte.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Mocinho Encrenqueiro

Título no Brasil: O Mocinho Encrenqueiro
Título Original: The Errand Boy
Ano de Produção: 1961
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Jerry Lewis
Roteiro: Jerry Lewis, Bill Richmond
Elenco: Jerry Lewis, Brian Donlevy, Howard McNear, Kathleen Freeman, Renée Taylor, Fritz Feld
  
Sinopse:
O estúdio Paramutual Pictures a cada dia perde mais dinheiro. Para o presidente da companhia o problema é que os gastos estão fora de controle. Apenas uma pessoa comum, que trabalhe em todas os setores do estúdio, conseguirá descobrir onde está exatamente o problema. Assim eles escolhem o office boy Morty S. Tashman (Lewis) para espionar os empregados, embora nem ele saiba o que está fazendo. Começa assim uma série de situações engraçadas envolvendo Morty em todos os lugares do estúdio.

Comentários:
Aqui Jerry Lewis usa um estúdio de cinema (a própria Paramount Pictures onde o filme foi produzido) como cenário para explorar uma série de gags visuais cômicas. O resultado é divertido, embora a produção apresente alguns problemas. O primeiro deles, e o mais sentido, é a falta de Dean Martin no elenco. Por essa época a bem sucedida parceria entre eles já havia sido rompida. Atuando solo, as situações já não são tão engraçadas como no passado. Além disso o sempre presente risco da saturação surge em determinados momentos - afinal de contas na maioria das cenas temos apenas Jerry Lewis e suas palhaçadas em cena. Provavelmente por essa razão também Lewis (que também assina a produção e o roteiro) tenha optado por realizar um filme rápido, ágil, com pouco mais de 80 minutos. Há realmente momentos bem bolados, como a cena em que Lewis fica preso em um elevador com uma multidão ou então quando, usando a trilha sonora musical, faz um "discurso" inflamado contra seus subordinados inexistentes, tal como se fosse o todo poderoso dono do estúdio. No geral a impressão que o filme me passa é que tudo se trata de uma grande homenagem, bem sincera aliás, de Jerry Lewis ao mundo do cinema. Explorando os bastidores, ridicularizando alguns de seus dogmas, ele conseguiu realmente realizar um filme bem divertido, excelente entretenimento, mas longe de ser uma obra memorável de sua filmografia.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

As Vidas de Marilyn Monroe - Parte 7

Uma das pessoas mais importantes na vida de Marilyn Monroe foi Johnny Hyde. Ele era um figurão de Hollywood, um sujeito muito rico que ficou perdidamente apaixonado pela atriz. Quando Hyde colocou os olhos pela primeira vez em Marilyn ela realmente não era ainda ninguém dentro da indústria. Apenas uma das centenas de  de aspirantes a atriz tentando arranjar algum trabalho dentro dos estúdios de cinema. Certamente era uma garota bonita, ainda bastante jovem, mas como ela havia muitas outras. Hyde era um sujeito muito mais velho do que ela, mas isso não importou pois foi amor à primeira vista. Ele ficou apaixonado como um adolescente na época escolar. Uma paixão devastadora!

Quando conheceu Marilyn, Hyde perdeu o juízo. Resolveu se separar da esposa, abandonou sua família e resolveu se dedicar de corpo e alma a Marilyn. Ela tinha muito a ganhar com esse relacionamento, mas sempre foi muito honesta com Hyde. Desde o começo deixou claro que não o amava como ele a amava. Não havia reciprocidade. Marilyn também jamais quis enganar Hyde dando a ele falsas esperanças. Mesmo assim, implorando por migalhas emocionais, Hyde resolveu apostar tudo o que tinha em Marilyn. Usou todo o seu poder financeiro e prestígio pessoal para conseguir papéis para a jovem atriz. Ele não escondia que era apaixonado por ela a ninguém. Com muito esforço conseguiu que John Huston escalasse Marilyn para seu novo filme que iria se chamar "O Segredo das Jóias". Foi a primeira vitória de Hyde em sua cruzada para transformar Marilyn em uma estrela de Hollywood.

Só havia mais um problema para Hyde, além do pouco retorno que Marilyn lhe dava em termos de afeição e amor: ele estava com um sério problema de coração. Os médicos lhe diziam que ele teria poucos meses de vida pela frente. Isso deixou um estado ainda maior de emergência em seu plano de ajudar Marilyn de todas as formas possíveis. Tão estafado ficou que acabou sofrendo uma parada cardíaca. Foi internado às pressas e só escapou da morte por causa do atendimento de emergência dos médicos que o atenderam. O pior porém veio depois. Marilyn não o visitou no hospital apesar dos inúmeros pedidos e ligações de Hyde para que ela o fosse visitar em seu leito. Quando encontrou com a professora de atuação de Marilyn, Natasha Lytess, desabafou: "Natasha, por que Marilyn não vem me visitar? O que está acontecendo? Eu fiz tudo por ela até hoje! Pode haver mulher mais ingrata do que Marilyn? Estou decepcionado... decepcionado..."

Mesmo com o apelo, Marilyn não foi ao hospital. Quando decidiu que finalmente iria lhe visitar aconteceu o pior: o coração de Hyde não resistiu e ele faleceu durante a madrugada. A morte de Hyde abalou Marilyn seriamente, principalmente pelas circunstâncias que ocorreram. Muitos a culparam por ele ter largado sua esposa e filhos e tudo mais. Marilyn ficou mal. Em seu enterro ela foi aconselhada por seu empresário para que não fosse ao funeral, porque a ex-esposa de Hyde e seus filhos estariam presentes, mas ela não ouviu os conselhos e compareceu ao último adeus de Hyde. Poucos dias depois resolveu se matar, tomando um monte de comprimidos. Quem a salvou da morte foi sua colega de quarto, uma starlet alemã com quem ela dividia o apartamento. Foi a primeira de muitas tentativas de suicídio de Marilyn... O detalhe mais preocupante porém vinha do fato de que Marilyn não tinha nem 25 anos de idade nesse momento em que decidiu acabar com sua própria vida! A tempestade estava apenas começando...

Pablo Aluísio.

domingo, 21 de agosto de 2016

Stewart Granger - King Solomon's Mines

Ontem assisti a versão de 1950 para a clássica história de "As Minas do Rei Salomão" de H. Rider Haggard. Na literatura esse livro é considerado um dos grandes ícones da aventura e no cinema temos várias versões interessantes sobre as aventuras de Allan Quatermain pelo continente africano selvagem. Nessa produção temos como estrelas o grande caçador branco Stewart Granger e Deborah Kerr. Ela interpreta Elizabeth Curtis, uma inglesa que desesperada após o desaparecimento do próprio marido na África, resolve procurá-lo indo até a região onde ele foi visto pela última vez. O sujeito estava com a ideia fixa de encontrar as mitológicas e lendárias minas de diamantes que um dia pertenceram ao Rei Salomão. Em posse de um mapa antigo resolveu encarar uma expedição em território hostil e nunca antes explorado por homens brancos. Depois que entrou naquele lugar simplesmente sumiu sem deixar vestígios.

Assim Elizabeth resolve contratar os serviços do caçador, explorador e aventureiro Allan Quatermain (Stewart Granger). Há muitos anos vivendo na África ele ganha a vida organizando safáris para britânicos endinheirados em busca de alguma aventura em suas vidas. A exploração que Elizabeth pensa fazer porém é algo bem diferente. Significa ir em terras distantes, inexploradas e sem mapeamento confiável. Inicialmente Allan recusa a oferta porém cinco mil libras o fazem mudar de ideia. Ele que pretende um dia voltar para a Inglaterra vê aquele dinheiro como uma saída da África para voltar a Londres onde pode ajudar seu filho. Juntos, Allan Quatermain e Elizabeth Curtis, saem então em direção ao desconhecido, começando uma aventura inesquecível.

Essa versão clássica de "As Minas do Rei Salomão" tem vários aspectos interessantes que não deixaram o filme em si envelhecer tanto como era esperado. O roteiro, sempre com um pé no chão, apostando no realismo (ao contrário da boba versão dos anos 80 estrelada por Richard Chamberlain), aposta no exótico da natureza selvagem africana, no relacionamento dos protagonistas e nas maravilhosas cenas tomadas em locações reais. Esse aliás é o grande diferencial do filme como um todo. Se os produtores tivessem filmado a produção em estúdio, na velha Hollywood, certamente teríamos uma sensação ruim, de coisa falsa. Ao contrário disso toda a equipe técnica e elenco foram realmente para a África, com cenários naturais reais, tudo feito in loco. Isso tornou o filme de certa maneira imune ao tempo. Afinal de contas excelentes cenas naturais nunca envelhecem.

Talvez o que realmente envelheceu e saiu de moda seja o próprio personagem Allan Quatermain. Ele é um caçador de animais e hoje em dia nada é mais odiado pela mentalidade ecológica predominante do que caçadores em geral (vide aquele recente caso envolvendo a caça e morte daquele leão em um santuário africano que ganhou todas as manchetes mundo afora). E como agravante o filme traz a morte real de um elefante logo nas suas primeiras cenas. O magnífico animal foi comprado pelos produtores e morto de fato para impressionar o público na época. A cena aliás é tristemente realista pois após levar o tiro certeiro o elefante cai no chão, tremendo, em estado de choque, tentando sobreviver enquanto outros elefantes fazem de tudo para levantá-lo do chão. Sob o ponto de vista moderno foi algo desprezível de se fazer, chocante mesmo! Provavelmente cenas como essa deixem o filme com um selo ruim, de algo maldito, que não deve ser mais refeito nos dias de hoje. Em minha visão isso é um olhar que não leva em conta o contexto histórico do momento em que o filme foi lançado, há mais de 60 anos atrás. Afinal de contas naquela época ser um caçador na África ainda era visto como algo heroico e altamente engrandecedor. Os tempos mudam.

As Minas do Rei Salomão (King Solomon's Mines, EUA, 1950) Direção: Compton Bennett e Andrew Marton / Roteiro: Helen Deutsch, baseada no livro de H. Rider Haggard / Elenco: Deborah Kerr, Stewart Granger, Richard Carlson, Lowell Gilmore / Sinopse: Uma aristocrata britânica chamada Elizabeth Curtis (Deborah Kerr) decide contratar os serviços do explorador e caçador Allan Quatermain (Stewart Granger) para localizar seu marido desaparecido em terras desconhecidas do continente africano. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme. Vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Direção de Fotografia (Robert Surtees) e Melhor Edição (Ralph E. Winters e Conrad A. Nervig). Também vencedor do Globo de Ouro na categoria de Melhor Direção de Fotografia. 

Pablo Aluísio.