sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ladrão de Casaca

Talvez o filme mais atípico da carreira de Alfred Hitchcock. Segundo algumas biografias isso se deu por um motivo básico: o diretor estava apaixonado pela estrela Grace Kelly (com quem havia trabalhado em "Disque M Para Matar" e "Janela Indiscreta") e por essa razão aceitou dirigir esse filmes muito soft, centrado muito mais no romance do que propriamente no suspense, que era a marca registrada do cineasta. A imprensa da época inclusive chegou a ironizar chamando "Ladrão de Casaca" de "Champanhe Hitchcock". Não há como negar que a produção é muito bonita e bem realizada. Inovando em várias novas tecnologias (Widescreen e Vistavision) o filme foi realmente considerado bem revolucionário nesse aspecto. Curiosamente o estúdio escalou o veterano galã Cary Grant para fazer o par romântico com a jovem e linda Grace Kelly. Grant estava às portas de se aposentar quando fez o filme. O sucesso de bilheteria acabou dando uma renovada em sua carreira como um todo e ele resolveu voltar para fazer mais filmes nos anos seguintes (com resultados irregulares). Foi filmando "Ladrão de Casaca" que Grace Kelly conheceu o príncipe Rainier de Mônaco. Há tempos ele procurava se envolver com alguma estrela de Hollywood para levantar seu pequeno principado que estava decadente. Chegou inclusive a sondar o mito Marilyn Monroe que não quis nada com o nobre por lhe achar muito feio e sem atrativos. Grace Kelly porém não pensou assim e começou um romance com Rainier, algo que perturbou o velho Hitchcock pois ela logo anunciaria o fim de sua carreira no cinema para se dedicar apenas ao seu futuro marido. O diretor jamais se perdoou quando soube disso!

Talvez por essa razão o velho Hitchcock tenha depois espinafrado tanto o filme, afirmando que era o que menos apreciava em sua carreira. De fato o cineasta realmente fez muitas concessões em prol de Grace Kelly, fugindo até bastante de suas principais características como diretor. Quando ela o deixou para se casar com Rainier ele interpretou isso quase como uma traição pessoal. Anos depois tentaria trazer Grace Kelly de volta para estrelar Marnie, um de seus filmes menos inspirados, mas ela novamente recusou. Como dito "Ladrão de Casaca" não consegue se sobressair no meio de tantos outros clássicos do mestre do suspense. O filme tem um tom muito ameno, beirando o sentimentalismo exarcebado, o que destoa do restante da obra de seu criador. De bom mesmo ficaram apenas as maravilhosas locações da Rivieira Francesa que foram magnificamente fotografadas e a nostalgia de ver a beleza insuperável de Grace Kelly, no auge de seu esplendor. Como suspense em si o filme deixa a desejar. O tema também passa longe da sordidez reinante em outros filmes de Hitchcock. Mesmo assim é impossível não se render a todo o charme e elegância que desfilam pela tela. Nesse quesito a dupla central de atores realmente era insuperável. Se não é um dos melhores filmes de Hitchcock, pelo menos fica longe das mediocridades que se produzem hoje em dia. Assista sem medo de se arrepender.


Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, EUA, 1955) Direção: Alfred Hitchcock / Roteiro: John Michael Hayes, Alec Cooper baseados no livro de David Dodge / Elenco: Grace Kelly, Cary Grant, Jessie Royce Landis, Brigitte Auer, Charles Vanel, John Williams, Georgette Anys, Jean Martinelli, Roland Lesaffre / Sinopse: John Robie (Cary Grant) é um veterano ladrão de jóias aposentado que vive tranquilamente na bela Riviera Francesa. Apelidado em seus dias de fama como "O Gato" ele agora começa a ficar intrigado por uma série de roubos recentes na região que repetem o seu conhecido modus operandi. Para provar sua inocência e pegar o novo ladrão o antigo “Gato” resolve voltar à ativa.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

5 comentários:

  1. Pablo:
    Eu não sei porque o Alfred Hitchcock não fez deste O Ladrão de Casaca um ótimo filme.

    O engraçado é que o Ladrão de Casaca é um personagem maravilhoso do Maurice Le Blanc, o Arsene Lupin, e, assim sendo, bastava saber dirigir para se fazer um grande filme com um personagem que já é espetacular na sua origem. Se não você ainda não leu, leia pelo menos o Ladrão de Casaca que é um livro com pequenos contos do Arsene Lupin escritos para um jornal Francês por Maurice Leblanc, vale a pena.

    Acho que super-valorizam o Alfred Hitchcock. No final do Festim Diabólico há uma reviravolta moralizadora que eu não sei como o James Stewart concordou em fazer e a última cena de Intriga Internacional, também com o pobre James Stewart, é causar vergonha alheia. Para um diretor que tem a fama de ser um dos melhores do mundo essas falhas são imperdoáveis e mostram que com a fama a crítica se torna mais complacente e puxa-saco.


    ResponderExcluir
  2. Olá Serge,

    É um ponto de vista interessante o seu. No caso de "Ladrão de Casaca" temos um diretor apaixonado (platonicamente) por sua atriz principal, então a visão do mestre Hithcock ficou meio desfocada. Mesmo assim ainda resiste a uma revisão atual.

    Abraços,
    Pablo Aluísio.

    ResponderExcluir
  3. Pablo:

    Estou criticando em um nível de exigência muito alto, portanto ressalto um detalhe: um mau Hithcock ainda é melhor que quasse tudo que existe, porem esses defeitos, na minha opinião que, que cito acima, me parecem grotescos vindo de tão aclamado mestre.

    ResponderExcluir
  4. Claro Serge, entendi o que você quis dizer. Abraços, Pablo Aluísio.

    ResponderExcluir
  5. Avaliação:
    Direção: ★★★★
    Elenco: ★★★★
    Produção: ★★★
    Roteiro: ★★★★
    Cotação Geral: ★★★★
    Nota Geral: 8.6

    Cotações:
    ★★★★★ Excelente
    ★★★★ Muito Bom
    ★★★ Bom
    ★★ Regular
    ★ Ruim

    ResponderExcluir