quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Entrevista: Robert Mitchum


Charlottesville - Ele chega vestido com um elegante terno azul escuro risca de giz, mas ele certamente nunca será confundido com um banqueiro. Há um toque de cinismo sobre Robert Mitchum, um sentimento de que as regras foram feitas para diverti-lo.

Ele está aqui no Festival de cinema de Virgínia, diz o programa, porque ele encarna "a alma do filme noir". Sim. Isso é certamente correto. Em suas inflexões irônicas, em seus olhos sonolentos cínicos, na forma lacônica como ele lida com uma arma ou uma dama, ele encarna a essência de um dos mais obscuros gêneros cinematográficos norte-americanos.

Tudo isso é verdade e Mitchum se diverte com o título que lhe deram. "Nós chamávamos aquilo de cinema B, filmes B", disse ele . "Simplesmente porque a pura verdade era que nós não tínhamos dinheiro para uma grande produção, não tínhamos os equipamentos, não tínhamos as luzes, nós não tínhamos nem tempo. A única coisa que nós realmente tínhamos eram algumas boas histórias para contar."

É o meu trabalho estar no palco com Mitchum, e entrevistá-lo depois da exibição do filme "Out of the Past" (1947), um dos maiores filmes noir já feitos, aquele em que Jane Greer diz para Mitchum: "Você não é bom, e eu não sou boa. Nós fomos feitos um para o outro". E o filme onde, brinca Mitchum, todos morrem, mais cedo ou mais tarde. "Mas bem que eu queria viver mais naquele filme" - sorri o ator.

Assim que chega e se senta para a entrevista no palco, Robert Mitchum agradece todos os aplausos. Sorrindo ele diz: "Que maravilhosa recepção! Muito obrigado. A última vez que vi algo assim foi quando Rin Tin Tin, o cachorro, você sabe, foi apresentado para a imprensa no salão de convenções da MGM. O totó foi uma das maiores estrelas do cinema! E pensar que Rin Tin Tin não passava de um truque de câmera!..." Os jovens estudantes de cinema morreram de rir com a ironia cínica de Mitchum.

Eu conheci Mitchum muitos anos antes. Em 1967, em Dingle, Irlanda, durante as filmagens de "A Filha de Ryan". Passei a noite em sua casa de campo à beira-mar, bebendo, e ele observou: "David Lean filmou por um dia inteiro hoje e olha que ele está oito dias atrasado nos cronogramas de filmagens. Daqui uns sete anos ele termina o filme!". Mitchum implicava com a data de seu aniversário onde, segundo ele, tudo dava errado. "Uma vez peguei uma carona no meu aniversário para ir até Pittsburgh e fui parar em Steubenville, Ohio!" Depois de beber mais uns goles completa: "Marilyn Monroe morreu no dia do meu aniversário. Gostava dela, assim toda vez que completo anos, lembro da loira". Depois observa: "Nasci no dia errado. No meu aniversário jogaram a bomba atômica sobre Hiroshima! Não falta mais nada para acontecer nesse dia!" - Depois disso o velho Mitchum soltou uma gargalhada sonora.

O que eu aprendi durante esses tempos em que convivi com Robert Mitchum foi que ele era um cara de ótimo papo, muito descontraído e certamente daria uma ótima entrevista, desde que você não fizesse nenhuma pergunta que lhe aborrecesse. Afinal Mitchum tem seu próprio ritmo, sua própria melodia. No palco, na Virgínia, ele acendeu um cigarro da marca Pall Mall sob aplausos, soprou a fumaça, e suspirou. Mitchum nunca fez média.

- "Você tem sido um ator de cinema por 50 anos" - eu disse.

Silêncio. Um encolher de ombros.

- "Bem, fazer caretas e falar linhas de textos escritos por outra pessoa não é realmente uma cura para o câncer, você sabe, mas eu sei fazer isso. Se você pode fazer com alguma graça, então melhor. Eu tive sorte. Fiz bons filmes por aí nesses anos todos. No final do dia você fica satisfeito com tudo"

- "Em "Out of the Past" você co-estrelou ao lado de Kirk Douglas. Você sempre foi muito descontraído e relaxado. Ele parecia ser mais focado, intenso"

- "Bem, Kirk era muito sério sobre tudo. Pouco antes de "Out of the Past", Betty Jane Greer e eu vi um roteiro que veio da Paramount chamado "O Estranho Amor de Martha Ivers". Kirk ficou muito interessante nele. Assim nós dissemos: "vamos deixar ele fazer esse filme, o estúdio tinha oferecido aquilo para nós mas eu disse, deixe pra lá, aparecerá outro texto bom". Ele passava o tempo todo com um lápis sobre o ouvido fazendo anotações em suas falas no script. Eu não estava nem aí para isso!" - afirma rindo bastante o ator.

- Você acha que houve alguma competição entre vocês?

- "Sim. Mas ele era um tipo diferente de ator. Eu era apenas um cara. É a tal coisa, por parte dele talvez. Eu era apenas o cara contratado"

O público em Virginia estava planejando assistir filmes noir durante todo o fim de semana: "The Big Sleep" (1946), "Detour", "Sunset Boulevard", "Ace in the Hole", "Os Imorais", "Gilda", "Chinatown" e outro filme com Robert Mitchum chamado "Farewell, My Lovely". Muitos dos filmes foram feitos há 40 ou 50 anos mas o interesse era enorme, o que comprovava que o filme noir não tem idade.

O público adorou as convenções sociais da época - como o hábito de fumar o tempo todo dos personagens. Sobre isso Mitchum não perdeu a piada: "Out of the Past (Fuga ao Passado, no Brasil) é talvez o maior filme já feito sobre o cigarro, eu fumo o tempo todo, Kirk também. Eu nem o via direto atrás de tanta fumaça" - o público cai na gargalhada.

- "Eu ainda fumo demais. A minha geração fumou muito. Pedir um cigarro era uma boa forma de puxar uma conversa." - resume sobre aqueles tempos o velho Mitchum.

- "Será que vocês tem alguma idéia de como fazer uma piada envolvendo o consumo de cigarros hoje em dia?" Eu perguntei.

- "Não, não... " - foi logo cortando Mitchum.

- "Porque há mais tabagismo neste filme do que em qualquer outro filme eu já vi" - completei.

- "Nunca pensei sobre isso. Era charmoso fumar naqueles tempos. Algumas atrizes tinham hálito de fumo! Para falar a verdade nem me lembro mais desse filme...mas me lembro dos cigarros, eram muito bons" - pisca o ator!

- "Você nunca reviu o filme?

- "Eu vi no cinema na época no dia de estreia, depois acho que o revi alguma vez, mas já faz tanto tempo que eu não sei... "


Depois de mais algumas perguntas, ele finalmente saiu para jantar com sua esposa, Dorothy, durante a exibição de mais alguns filmes noir. Depois, no restaurante, perguntei-lhe sobre "The Night of the Hunter" (O Mensageiro do Diabo, 1955), o grande filme dirigido por Charles Laughton, no qual interpretou o pregador sinistro que tinha em suas mãos tatuadas as palavras "Amor" tatuado de um lado, e "ódio" na outra.

- "Charles (Laughton) me ligou" - lembra Mitchum - "... e disse: Robert? Aqui quem fala é Charles. Ontem recebi um script horrível. Uma porcaria. Mas podemos fazer algo completamente diferente com ele. Com o dinheiro do estúdio faremos um grande filme. Deixem eles pensarem que estamos fazendo o filme que eles querem. Faremos algo nosso!. Então marcamos um encontro para discutir o projeto. Ele queria filmar em West Virginia ou Ohio mas o orçamento não permitia. Depois disse que chamaria Shelley Winters pois seu cachê era baixo, pouco mais de 25 mil dólares. Foi um filme feito com pouco dinheiro. Charles não era só diretor, às vezes era figurinista e até sonoplasta. Em compensação era um cineasta fantástico. Ele era como John Huston ou pessoas assim. Ele não lhe dizia o que fazer ou o que seu personagem estaria pensando. Alguém como Cukor diria: 'Agora, ele está pensando isso, e isso ...' E eu respondia: 'É Sério isso?!' Mas Charles era um cineasta sutil. Ele ajudava a montar a cena, junto com o ator, e depois agradecia pelo resultado. Era muito gratificante.  As pessoas sempre querem saber por que ele nunca dirigiu outro filme. O que posso dizer? Ele morreu cedo demais, foi por isso"

Na volta da entrevista diante do público no festival Mitchum percebeu que já tinha o público na palma da sua mão. Ele contou sobre sua afeição por Charles Laughton, mas todos queriam saber sobre outros grandes diretores com que ele trabalhou.

David Lean, por exemplo. Então Mitchum relembrou o estilo do cineasta no set: "David iria sentar lá na cadeira, pensando, pensando e pensando um pouco mais. Ficava sentado, olhando o horizonte,  pensando por horas e horas no set. Soube que quando estava filmando Lawrence da Arabia ele ficou tanto tempo na cadeira que pegou uma insolação! Depois tiveram que levar ele de lá às pressas porque uma guerra havia estourado perto do local das filmagens" - diz, divertindo-se Mitchum sobre o famoso diretor - "E ele estava na cadeira quando a guerra começou..." - mais uma vez o público caiu na gargalhada.

Perguntado sobre o que havia achado da refilmagem de seu filme de 1962 com Robert De Niro em seu antigo papel, Mitchum desconversou afirmando que não havia ainda assistido o filme de Martin Scorsese.

Alguém na plateia perguntou-lhe sobre de Marilyn Monroe e seu rosto se suavizou.

"Eu a amava" - disse ele - "Eu a conhecia desde quando ela tinha uns 15 ou 16 anos de idade. Era colega de trabalho de seu primeiro marido na linha na fábrica da Lockheed em Long Beach. Foi quando eu a conheci. E eu a conhecia muito bem. E ela foi uma linda menina.... muito, muito tímida. Ela teve o que hoje é reconhecido como agorafobia, tinha pavor de sair no meio das pessoas. Naquela época eles formavam um casal comum, como qualquer outro. Ela era muito doce e feliz. Mas daí o marido foi servir na Marinha longe de casa e o casamento acabou. A revi no estúdio, por acaso, anos depois. Fizemos filmes juntos e gostávamos de rir muito. Sei que muitos a exploraram em seus anos em Hollywood. Isso é triste".

E o que dizer de Humphrey Bogart? - alguém perguntou. Como ele era?

- "Sim, eu o conhecia. Bogey e eu éramos bons amigos. Uma vez ele me disse: 'Você sabe, a diferença entre você e eu e os outros caras, não sabe?... - o jeito dele falar isso foi muito engraçado. Bebia do café da manhã ao jantar e não ficava embriagado, impressionante. Lá pelas três da tarde eu já estava caído no chão, bêbado, quando ia na casa do Bogey e ele, que havia bebido tanto quanto eu, estava lá, sóbrio, com copo na mão e o terno impecável. Nunca vou entender aquilo!" - brinca Mitchum.

Havia um monte de alunos da Universidade de Virgínia na plateia, e um deles perguntou: " Ah, o Sr. Mitchum, dada a sua atitude despreocupada em direção de cinema, o que você acha de um festival como este, que estuda cinema de forma crítica e analiticamente? "

- "Minha o quê?"

- " Sua atitude ocasional ... "

- "Sim, sim, eu consegui o papel casual. Qual foi a outra parte?"

Todos riram.

- "O que você acha dos festivais de cinema?"

- "Eles são freak shows. É como um show de aberrações de um parque de diversões de quinta categoria. Assim que uma estrela de Hollywood confirma a presença as estações locais de TV são avisadas. É como se uma girafa fosse solta no seu quintal. As pessoas nunca vêem uma girafa tomando banho na piscina da sua casa, então todo mundo vai lá ver. Com os atores de cinema é a mesma coisa!"

Depois disso a plateia veio abaixo com palmas e risos. Robert Mitchum é muito simpático e brincalhão. Um dos grandes atores do cinema clássico que nunca se levou muito à sério. Foi um prazer entrevistar ele. Melhor do que ver uma girafa no quintal.



 Texto originalmente publicado em outubro de 1993 no jornal The Daily Progress.

4 comentários:

  1. Pablo:

    Você diz que conheceu o Robert em 1967? Cara, quantos anos você tem?

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  2. Serge, esse texto não é de minha autoria. É uma tradução de um artigo que foi publicado em um jornal americano, que inclusive está citado: " Texto originalmente publicado em outubro de 1993 no jornal The Daily Progress.",

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  3. Ok, é que eu li que você estava morando nos Estados Unidos um período, e como não havia citação de outro autor, eu pensei que o texto era seu,

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