segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Marlon Brando e Elia Kazan

Em sua autobiografia o ator Marlon Brando foi enfático ao dizer que de todos os diretores com quem trabalhou Elia Kazan foi o melhor. Para Brando, Kazan tinha uma qualidade única ao dirigir atores pois ele próprio havia sido ator nos anos 30. Assim tinha plena confiança em seus intérpretes e fazia de tudo para que eles também fizessem parte do processo criativo de um filme. Por isso Kazan dava total liberdade ao seu elenco, algo que Brando admirava muito. Todos os detalhes de uma cena eram debatidos por Kazan e seus atores e juntos procuravam o melhor caminho para fazer o mais adequado para o filme. Essa forma de trabalhar deixava Brando completamente à vontade, muito concentrado em suas cenas, dando o melhor de si. O interessante é que Kazan ficava atrás das câmeras, recitando as falas, atuando como se estivesse em cena. Fazia gestos, poses e os atores se sentiam bastante desafiados a atuar da melhor forma possível para esse tipo de diretor tão engajado e emocionalmente comprometido com sua obra.

Apesar de profissionalmente se darem muito bem, na vida pessoal Marlon Brando acabou criando sérias divergências com Elia Kazan. Acontece que o diretor foi membro do Partido Comunista durante os anos 30 e anos depois caiu na malha fina do Macartismo, que naquela altura estava em uma verdadeira caça às bruxas contra comunistas dentro do cinema americano e do mundo das artes em geral. Convocado para depor Elia Kazan não pensou duas vezes e entregou todos os seus antigos companheiros de partido. Isso obviamente arruinou a vida desses profissionais que ficaram sem ter onde trabalhar ou arranjar emprego pois nenhum estúdio de Hollywood os contrataria após seus nomes estarem na lista negra. Alguns inclusive não aguentaram a pressão e se mataram. Foi uma atitude feia, vergonhosa e lamentável por parte de Kazan. O ato de ser um dedo duro covarde acompanharia e mancharia a biografia de Elia Kazan até o fim de sua vida.

Para completa surpresa de Marlon Brando ele também entrou na lista negra, só que por um ato menor, que no final das contas não o prejudicou em sua carreira. Anos antes Brando havia assinado um abaixo-assinado contra o enforcamento de um negro numa prisão do sul. Isso bastou para colocar seu nome entre os possíveis "vermelhos" de Hollywood! Pior aconteceu com sua irmã, Jocelyn Brando, que também foi incluída a lista negra por um erro absurdo: ela tinha o mesmo sobrenome de um infame roteirista comunista, só que na verdade ela nem conhecia o sujeito! Isso a prejudicou e ela ficou um tempo sem conseguir arranjar emprego em Hollywood e teve que ir para Nova Iorque para trabalhar em peças de teatro na cidade. Brando ficou indignado com as acusações. Ele nunca havia sido comunista e se tivesse sido teria assumido tudo de peito aberto. Era uma mentira e uma calúnia contra ele e sua irmã.

Esses fatos por si só já tinham convencido Brando de que nunca mais trabalharia ao lado de Elia Kazan. Assim foi com muita resistência que aceitou fazer um último filme ao lado do diretor, "Viva Zapata!", uma cinebiografia do famoso revolucionário mexicano Emiliano Zapata. O roteiro lhe interessava particularmente e o fato de Kazan filmar algo com aquela proposta lhe soava como uma doce ironia do destino. O presidente da Fox achava que o projeto tinha poucas possibilidades de ser bem sucedido comercialmente e por isso disponibilizou um orçamento bem limitado. A fotografia também seria em preto e branco para economizar custos. Obviamente o filme hoje é considerado um clássico absoluto, para surpresa de muitos da época que diziam que seria uma bomba nas carreiras de Brando e Kazan. Sua qualidade cinematográfica porém acabou provando que se em sua vida pessoal e política Elia Kazan tinha do que se envergonhar, como cineasta ele continuava tão brilhante como antes.

Pablo Aluísio.

Um comentário:

  1. Cinema Clássico - Pablo Aluísio
    Marlon Brando e Elia Kazan
    Todos os Direitos Reservados.

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