quinta-feira, 9 de março de 2017

Marlon Brando - A História de um Mito - Parte 12

As filmagens de "O Último Tango em Paris" foram mais complicadas do que todos poderiam prever. O diretor Bernardo Bertolucci não falava inglês, Marlon Brando não falava italiano e a atriz Maria Schneider era francesa. Por isso não havia como se comunicarem direito. Em seu livro de memórias Brando explica que na maioria das vezes se comunicava através de mímica com o diretor ou então nas poucas palavras em francês que ele dominava.

Também não havia um script e o roteiro era completamente aberto. Toda a liberdade que Brando procurou por anos lhe foi dada. Ele poderia dizer o texto que quisesse, falar o que bem entendesse, sem seguir nenhuma regra. Assim Brando improvisou praticamente em todas as cenas, revivendo antigas lembranças de sua infância, falando dos pais, da mãe alcoólatra, de seus primeiros anos em uma cidade rural do meio oeste americano. Isso acabou virando uma verdadeira terapia para o ator. Sua atuação foi a mais íntima e pessoal de toda a sua carreira. Algo inédito em sua vida profissional.

Isso levou Brando a também ter um esgotamento emocional nas filmagens. Tamanho esforço lhe deixou exausto a tal ponto que depois o próprio Brando acabou renegando o filme. Ele só o assistiu uma única vez, depois nunca mais quis rever a obra. Em seu livro ele chegou a admitir que jamais chegou a entender completamente a proposta de "O Último Tango em Paris" e creditou ao acaso o sucesso de crítica da produção. Resenhas altamente elogiosas, como a da famosa Pauline Kael, eram exageradas, na visão pessoal de Brando.

Recentemente o filme voltou a criar polêmica quando o diretor Bernardo Bertolucci declarou que as cenas de sexo tinham sido reais e sem a prévia autorização da atriz Maria Schneider. Por isso muitos jornalistas chegaram até a acusar Bertolucci e Brando de terem promovido um estupro durante as filmagens. Não era verdade. Em seu livro Brando deixou claro que não houve sexo real nas cenas, que tudo havia sido apenas simulado, encenado. Ele nunca teve relações sexuais com a atriz. Assim a tese de que teria havido um estupro nunca fez o menor sentido. De sua parte Marlon Brando deixou claro que depois desse filme jamais iria se despir emocionalmente como fez. Era doloroso demais, relembrar os traumas do passado e tudo mais. Dali em diante o próprio Brando só aceitaria participar de filmes com scripts devidamente escritos, em roteiros mais tradicionais. A liberdade completa, pelo visto, não lhe fez muito bem.

Pablo Aluísio.

4 comentários:

  1. Cinema Clássico - Pablo Aluísio
    Marlon Brando - A História de um Mito - Parte 12
    Todos os direitos reservados.

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  2. Dar liberdade total a um ególatra como Brando é dar um revolver carregado a um macaco; saia da frente.

    Uma vez numa entrevista, acho que na Playboy, o Marlon Brando, em um dos seus poucos instantes de lucidez, disse que ator não é artista, que artista era o Mozart, o Beethoven, etc. e que atores não passavam de operários exercendo seu oficio. Fiquei tão impressionado com essa clareza de raciocínio e também com a humildade do ator que na época, pós O Poderoso Chefão, estava consagrado como o melhor ator do mundo, que guardo isso comigo até hoje, mais de 30 anos depois.

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  3. Isso mesmo... E o Brando agiu mesmo como um macaco com uma arma engatilhada. E sim, o Brando tinha realmente um certo desprezo pela profissão de ator. Certa vez ele resumiu sua profissão dizendo que era como "brincar de casinha", mas aí também, vamos convir, ele foi longe demais.

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  4. De uma certa forma parece mesmo brincar de casinha; é uma profissão bem leviana.

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