segunda-feira, 3 de julho de 2017

Acorrentados

Depois de um acidente em um caminhão de transporte de prisioneiros, dois condenados, um branco e outro negro, conseguem fugir. Eles correm por suas vidas, tentando de todas as formas ganhar a tão almejada liberdade. Só há um problema nessa fuga: eles estão acorrentados um ao outro. Assim embora tenham muitas diferenças pessoais entre si, eles terão que superar tudo, em prol da sobrevivência mútua! Atrás deles vão os policiais, com cães farejadores e armamento pesado. O próprio governador quer, por questão de honra pessoal, que eles sejam recapturados o mais rapidamente possível, mortos ou vivos!

Esse filme "Acorrentados" é sempre muito lembrado, tanto por fãs do trabalho de Tony Curtis, como de Sidney Poitier. Os dois atores dominam a cena, em um trabalho de atuação bem físico, mas que em nenhum momento compromete a dramaticidade do filme como um todo. O personagem de Tony Curtis é um branco com claras tendências racistas. Antes mesmo do acidente eles já se desentendem no caminhão que os transportava de uma penitenciária a outra. O branco chega ao ponto de chamar o personagem de Sidney Poitier de "nigger", uma palavra de óbvia conotação racista nos anos 50.

Assim o diretor Stanley Kramer aproveita a situação para também explorar o tema dos direitos civis em seu filme. No fundo a situação de um branco acorrentado a um negro representava a própria América naquele período histórico. Apesar do racismo, ambos deveriam trabalhar juntos em prol do desenvolvimento daquela nação tão dividida. Com isso o que temos aqui é na realidade uma metáfora, um espelho da própria sociedade americana. Dividida entre brancos e negros, mas ao mesmo tempo acorrentados uns aos outros, tendo que viver juntos.

A própria maneira como ambos os prisioneiros são encarados pelas pessoas que encontram em sua fuga demonstra bem isso. Tony Curtis, o branco com pinta de galã, sempre tem o benefício da dúvida em seu favor. O encontro com o garotinho no meio da estrada e depois quando ele conhece a mãe dele, demonstram bem isso. Já o negro de Poitier sempre é encarado como o marginal sem salvação, o que deve ser temido, mesmo que no fundo ele tenha uma personalidade mais branda do que o branco aprisionado a ele em correntes. Em suma, "Acorrentados" é um filme que permite várias leituras e interpretações. Assista e tire suas próprias conclusões.

Acorrentados (The Defiant Ones, Estados Unidos, 1958) Direção: Stanley Kramer / Roteiro: Nedrick Young, Harold Jacob Smith / Elenco: Tony Curtis, Sidney Poitier, Theodore Bikel, Cara Williams / Sinopse: Dois prisioneiros acorrentados conseguem fugir durante um acidente e precisam sobreviver enquanto os policiais literalmente o caçam pelos bosques e pântanos da região. Filme vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Roteiro Original (Nedrick Young e Harold Jacob Smith) e Melhor Fotografia (Sam Leavitt). Também indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator (Tony Curtis e Sidney Poitier), Melhor Ator Coadjuvante (Theodore Bikel), Melhor Atriz Coadjuvante (Cara Williams), Melhor Direção (Stanley Kramer), Melhor Edição (Frederic Knudtson) e Melhor Filme. Vencedor do Globo de Ouro na categoria Melhor Filme - Drama. Também vencedor do BAFTA Awards na categoria de Melhor Ator (Sidney Poitier).

Pablo Aluísio.

4 comentários:

  1. Avaliação:
    Direção: ★★★
    Elenco: ★★★★
    Produção: ★★★
    Roteiro: ★★★★
    Cotação Geral: ★★★★
    Nota Geral: 8.0

    Cotações:
    ★★★★★ Excelente
    ★★★★ Muito Bom
    ★★★ Bom
    ★★ Regular
    ★ Ruim

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  2. A diferença com a realidade é que o Sidney Poitier era tão bonito quanto o Tony Curtis e, como todos sabemos, isso ameniza consideravelmente e rejeição em relação a diferença racial e, na realidade, essa sorte genética, reservada a poucos privilegiados pela natureza, inexiste e ai as diferenças se tornam realmente significavas e cruéis.

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  3. Sidney Poitier foi provavelmente o ator negro mais elegante e digno da história de Hollywood. Não vejo ninguém que possa ser comparado a ele mesmo após tantos anos passados. É um caso único.

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  4. Em termos de dignidade, não de beleza, o Morgan Freeman, ou o Denzel Washington, seriam um bons substitutos, só não sei se podem ser considerados atores de "hoje em dia".

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